Teologização das esquerdas - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de agosto de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
De repente uma onda de aparente religiosidade açoita as esquerdas. João Pedro Stédile, o líder intelectual do MST, em vez de descarregar sua ira sobre a revista Veja que publicou seu rosto na capa de um dos números sob um fundo vermelho e com a aparência de Belzebu, preferiu atacar o presidente Fernando Henrique Cardoso a quem chamou, não entendi bem porque, de Satanás.
Pouco depois, Luiz Inácio Lula da Silva, o candidato da Frente de Esquerdas, resolveu apelar para a Inquisição e disse que Fernando Henrique é herege. O presidente tinha ido ao encerramento de um curso de trabalhadores ligados à Força Sindical, e Lula, que há muito tempo não trabalha, tendo tido apenas uma breve passagem na labuta como torneiro mecânico, tachou de heresia a presença de Fernando Henrique num recinto operário. Provavelmente essa tendência haverá de continuar na medida em que as esquerdas mergulharem cada vez mais no inferno astral da campanha, e para complicar tal clima, Lula deu graças a Deus porque o desemprego aumentou. Essa foi diabólica.
Antigamente a estrela petista preferia poeirentas caravanas pelo interior do País. Ele mostrava a bandeira do seu partido bradando que era vermelha como o sangue de Jesus. Agora prefere lugares mais confortáveis, e de pregador de massas se transformou em exorcista do neoliberalismo.
Interessante é que pouco tempo atrás um esquerdista que se prezasse jamais falaria em Deus ou no diabo. Na época em que se dizia sou comunista, e não sou socialista, seguia-se fielmente a bíblia do profeta Karl Marx e o materialismo era dogma. Aliás, Marx foi o autor da famosa frase que fez um frêmito de indignação de percorrer os clérigos do seu tempo: A religião é o ópio do povo.
Mas agora os tempos mudaram. O materialismo de Marx e Engels foi esquecido e estamos diante de uma teologia marxista que, por sua vez, ampara-se na teologia socialista que faz parte da ideologia de um dos setores da Igreja Católica.
A propósito, nesta semana se viu o bispo d. Demétrio Valentini, coordenador da Pastoral Social da CNBB, ficar zangadíssimo com o presidente Fernando Henrique por este não ter podido participar da 3º Semana Social Brasileira. Considerando que o encontro representaria toda a sociedade, o bispo tomou o não-comparecimento presidencial como uma afronta a essa mesma sociedade. Ele reagiu dizendo: Eu vejo no governo de Fernando Henrique uma desistência do projeto nacional e uma submissão ao capital estrangeiro ( Folha do dia 6). No tocante à submissão ao capital estrangeiro, note-se que d. Demétrio usou um jargão para Brizola nenhum botar defeito.
Evidentemente, d. Demétrio não representa a Igreja como um todo. Mesmo porque, ele se esqueceu da recomendação do papa João Paulo II no sentido do clero não se imiscuir diretamente em política. E em que pese o fato de negar que faz política porque a Igreja não faz e ele é um membro da alta hierarquia eclesiástica, d. Demétrio faz política como a Igreja sempre fez.
Ressalve-se aqui, que o papa é um homem sábio. Ele prefere o verdadeiro campo de atuação da Igreja, que é o espiritual e não o temporal. E entre outras razões para essa atitude, talvez exista uma que se baseia na previsão de uma possível guerra santa entre católicos e protestantes aqui no Brasil. Dotado como é do espírito ecumênico, o Santo Pontífice quer evitá-la.
Por que levanto essa hipótese? Bem, primeiro porque as igrejas evangélicas têm aumentado consideravelmente na medida em que muitos católicos se evadem em direção a essas opções religiosas. Segundo, porque muitas destas igrejas começam também a fazer política, e algumas de forma bem eficiente, tomando, inclusive, a dianteira da Igreja Católica em alguns casos, o que provoca maior rivalidade.
A idéia dos evangélicos de formar blocos religiosos no Congresso é um bom exemplo de política explícita, e a isso d. Demétrio reagiu dizendo que tal coisa não interessa à Igreja. Ele criticou os evangélicos ao afirmar: Usam o Congresso para beneficiar a igreja deles. ( Folha do dia 6). Mas o bispo se esquece que a Igreja Católica já usou o Congresso inúmeras vezes para se beneficiar. Por exemplo, os resultados obtidos na Constituição de 1946 foram extremamente satisfatórios para a Igreja. Naquela ocasião, o cardeal Mota, de São Paulo, comemorou, entre outras conquistas, a manutenção de suas escolas, colégios e universidades, como ensino comparado ao ensino oficial, e a isenção de impostos do Estado.
Mas voltando às esquerdas, note-se que se acentua em suas hostes no período eleitoral a mistura estapafúrdia de populismo exacerbado, teologia socialista, vulgata marxista e nostalgia medieval. Pensando que estão na vanguarda, estes espécimes políticos aos poucos retrocedem da Idade Média ao paleolítico. Por isso, muita gente entediada resmunga diante dos seus discursos que prometem o paraíso: Diabos que o carreguem.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga em Londrina


