Com o aparente malogro das negociações intermediadas pelos EUA entre israelenses e palestinos e o provável acordo entre os palestinos e os países árabes para embargar a oferta de petróleo para Israel, o preço do petróleo no mercado futuro consolidou-se em processo de alta.
Como a agenda do petróleo coincidiu com uma semana de queda nas bolsas de tecnologia, puxada pela queda dos resultados da IBM, as más notícias das negociações no Oriente Médio ajudaram a formar um perfil de baixa em quase todas as bolsas do mundo, num movimento que a semana que se inicia se encarregará de mostrar como episódico ou tendencial. Os principais bancos de investimento e fundos de gestão de recursos de terceiros do mundo já incorporaram em suas previsões cenários bem pouco animadores quanto à trajetória mais imediata da economia mundial.
Já o presidente do banco central americano, Alan Greenspan, relativizou os eventos do Oriente Médio, servindo de ‘‘bombeiro’’ no mercado futuro de taxas de juros internacionais: justo ele que, nos meses recentes, foi o grande incendiário desses mesmos mercados, ao contrapor suas ameaças de elevar os juros de referência americanos quando todos os demais agentes econômicos davam sinais de que a ‘‘economia ponto. com’’ ia de vento em popa rumo ao sucesso desbragado. Sempre no contrapé do mercado, o vetusto banqueiro central americano poderia mais uma vez estar redondamente certo (sic).
Afinal, suas previsões sobre a irracionalidade exuberante dos mercados de tecnologia americana, fizeram com que os gestores dos recursos de terceiros ficassem mais exigentes e menos deslumbrados ao avaliar os mirabolantes projetos ou as infindáveis geniais idéias que passaram a congestionar os portfólios de projetos de vários fundos de investimento.
No plano geopolítico, no entanto, as previsões de Greenspan soam, em princípio, mais como desejo do que como realidade. Afinal, a questão do petróleo se soma à questão da fragilidade do euro, dos desequilíbrios das economias da Argentina e do México, da recuperação ainda frágil das economias orientais e, por que não admitir, da transição ainda não completada da economia brasileira.
O governo brasileiro, praticamente sem precisar segurar mais os aumentos do petróleo no mercado interno brasileiro, uma vez que seus candidatos perderam nas principais capitais onde ele, governo, jogava as pedras da sucessão de 2002, já sinaliza aumentos da gasolina e de seus derivados da ordem de 5% ou mais a partir do inicio de novembro.
O impacto desses movimentos micros e macros econômicos nas contas brasileiras são ainda difíceis de prever ou, talvez, ainda prematuro de se cogitar. Haja vista que tudo pode acontecer na economia mundial: inclusive a possibilidade de não acontecer coisa alguma! E, assim, árabes e palestinos voltarem a sorrir e apertar mãos como fizeram há muito pouco tempo atrás, surpreendendo todos que hoje estão preocupados com o recrudescimento das imemoriais escaramuças entre aqueles dois povos.
Seja como for, por precaução ou prudência, o Banco Central brasileiro resolveu manter estável a taxa de juros de referência da economia brasileira, sem sinalizar qualquer viés ou tendência de alta ou de baixa, até a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), no próximo dia 22 de novembro. De um lado porque continua a haver notável dissintonia entre as taxas de juros praticadas pelo mercado e aquelas sinalizadas pelo Copom.
De outro porque, nos mercados futuros de juros e câmbio, vencíveis de três a seis meses na frente, já se estão incorporando expectativa de alta por força da estreita vinculação existente entre a economia brasileira e a economia internacional por força do alinhamento das políticas do FMI seguidas a ferro e fogo pelo governo FHC.
Á la Greenspan, o Banco Central brasileiro decidiu apostar e pagar para ver: se acertar, foi mais um ato de indefectível clarividência e bom senso; se errar, errou antes a economia mundial, errando todo mundo junto com ela, fazer-se o quê, então? Enquanto isto, os indicadores da situação social da economia brasileira continuam a se degradar e a piorar a olhos vistos e com fartas estatísticas, mesmo do governo, a atestar e comprovar.
- SAULO KRICHANÃ RODRIGUES é economista em São Paulo
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