Folha Qual a marca que o senhor pretende imprimir na administração durante seu período de interinidade?
Jorge Scaff O que eu pretendo fazer acima de tudo é trabalhar com bastante prudência, fazendo as coisas dentro da legalidade. E fazer tudo o que puder em benefício de Londrina, que, aliás, é a razão maior de eu estar aqui na prefeitura.
Folha Londrina é uma cidade de porte médio, mas de grandes problemas, até por ser pólo de uma região. O que mais tem chamado sua atenção neste espaço de tempo em que o senhor está no cargo?
Scaff Tenho observado a demanda e tido uma preocupação com habitação. Noto quanta gente tem necessidade em conseguir sua casa própria. Mas com os programas desenvolvidos pela prefeitura, o Poupalar e o Renascer, que já reúnem cerca de 26 mil mutuários, tenho a impressão que pode responder a esta necessidade. Muita gente vai conseguir ter a sua casa própria. Me preocupo também com a saúde, um setor muito importante. Tenho notado a preocupação do secretário de saúde, Agajan Bedrossian, porque existe uma lei federal que impede horas extras. O setor da saúde precisa de funcionários em horários diferenciados. Tenho buscado uma solução efetiva para este problema.
Folha A situação financeira da prefeitura também faz parte de suas preocupações?
Scaff Sim. Vamos ter de cortar um pouco as despesas do município. A arrecadação não está sendo suficiente, estamos com déficit de R$ 3 milhões mensais, entre arrecadação e despesa. Então temos de olhar com muito carinho para isto. Um problema ligado a essa questão é a frente de trabalho. Me parece, embora não possa assegurar, que há pessoas que não estão trabalhando, em determinados segmentos da frente. Então me preocupo com este problema, já que não é justo o servidor não estar exercendo sua função. No mais, a gente fica sempre na expectativa de que alguma coisa positiva possa acontecer.
Folha O que o senhor quer dizer com isso? Espera injeção de recursos extras?
Scaff Assumi a prefeitura em uma situação de emergência. Amanhã ou depois eu posso não estar mais aqui. Então não posso planejar nada a longo prazo, tenho de fazer as coisas de imediato. Para isso é preciso ponderação exatamente para não precipitar e fazer coisas erradas, que não venham ao encontro do interesse da sociedade. Esta é minha preocupação maior. Dentro de uma rapidez necessária, mas com muita cautela e prudência para não cometer enganos. Estamos sujeitos a isso, afinal, quem não comete erros? De consciência faço força para não cometer enganos. Procuro conduzir a prefeitura como se conduzisse minha casa. Com honestidade e respeito.
Folha Governantes de todo o País estão preocupados em adequar a máquina administrativa às determinações da Lei de Responsabilidade Fiscal. O que o senhor pretende fazer para, por exemplo, não ultrapassar o limite de 60% com folha de pagamento?
Scaff Esta lei é uma preocupação constante. A lei proíbe pagamento de horas extras. Ela é rigorosa em certos aspectos, como por exemplo na realização de obras, que determina prazo final de sua entrega. Se a obra não for concluída, o governante tem de deixar em caixa o valor correspondente à conclusão daquela obra. Temos de fazer um enxugamento agora, tenho de verificar excessos em cada secretaria e o que está faltando em determinados setores. Muitas vezes a hora extra é exatamente porque falta gente e o funcionário tem de dobrar. Mas há gente em outras secretarias sobrando, de modo que é um trabalho que tem de ser feito. Você pode ter certeza: só será dispensado aquele que não estiver trabalhando. Não é justo que a sociedade pague por quem não está trabalhando.
Folha Existe possibilidade de atraso no pagamento do funcionalismo?
Scaff A preocupação existe. O secretário de Fazenda, Jair Gravena, já está orientado para envidar todos os esforços para evitar esta situação. Temos de partir para algumas iniciativas. Temos uma inadimplência de cerca R$ de 90 milhões. Temos de estudar maneiras de intensificar esta cobrança. Hoje é difícil captar recursos, sobretudo agora, em final de mandato, além da própria situação que estamos vivendo. Temos de buscar soluções internas. A receita é cortar despesas e alavancar a arrecadação para poder sobreviver.
Folha O senhor já admitiu demissões na frente de trabalho. Que outras medidas efetivas o senhor estuda?
Scaff Tudo vai depender de verificações que vamos fazer junto às secretarias. Esta semana quero visitar todos os setores pessoalmente para conhecer melhor os funcionários. Nestas visitas estarei acompanhando o trabalho, a movimentação de cada um. Eu gostaria de chegar em cada lugar e encontrar as pessoas ocupadas.
Folha A política de industrialização de Londrina foi prejudicada depois do afastamento do prefeito Antonio Belinati (PFL). Como o senhor – na sua interinidade – pretende reverter esta má imagem da cidade?
Scaff Não acredito nesta má imagem. Londrina é uma cidade respeitada no Brasil e exterior. Levantamento que me foi apresentado pela Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel) mostrou uma série de empresas interessadas em se implantar na cidade. O que acontece é que para isso há um custo, e diante de uma situação de dificuldade financeira, temos de nos adaptar a esta realidade. Enfim, temos uma relação de mais de 20 empresas interessadas na cidade, portanto a imagem de Londrina não foi abalada. Os fatos foram noticiados. Mas a cidade continua sendo interessante para qualquer empresa. Um fato excepcional não vai abalar o nome que Londrina tem. Isto não me preocupa. O problema é atender empresas no início das atividades, em termos de doação de área e isenção de tributos.
Folha O senhor pode revelar qual sua expectativa de permanência no cargo de prefeito?
Scaff Não. (risos) Digo sempre: toda hora olho pela janela e vejo o prédio do Legislativo. Fico então imaginando que de uma hora para outra terei de atravessar esta praça e retornar às atividades de vereador logo, logo, mas não sei quando. Pode ser amanhã, daqui a 90 dias ou no final do mandato.
Folha Isto não frustra o senhor? Ter de voltar à Câmara e ainda com a agravante de não poder se candidatar?
Scaff Não. Eu assumi a prefeitura com tranquilidade, consciente de que não seria candidato. Com 54 anos de Londrina, não podia me recusar, num momento destes, a servir a cidade que me acolheu, onde só tenho amigos. Em um momento difícil destes eu não podia me furtar. Analisei bem. Não nasci vereador e nem vou morrer como um. Minha preocupação é com meu eleitorado. Mas como não me ausentei e posso continuar a atender meus eleitores, tenho certeza que eles compreendem. Os 2.426 votos que tive, eles estão todos comigo dirigindo Londrina.
Folha Ao assumir a prefeitura o senhor decidiu por terminar sua carreira política ou planeja vôos maiores?
Scaff Sou uma pessoa consciente. Tenho a certeza de que não serei candidato. Depois das eleições, se, por exemplo, o prefeito eleito entender que posso ser útil ao município, pode ser até que eu continue prestando serviços a Londrina. Se não, já sou aposentado pela Receita Estadual, deixei a presidência do Grêmio Literário e Recretivo, depois de 23 anos, então acho que vou cuidar da minha vida, tranquilamente.
Folha Uma característica do senhor é a prudência. Até onde este comportamento está ajudando-o a administrar?
Scaff Tenho certa experiência para administrar pressões, vaias, enfim. Fui técnico do Londrina Esporte Clube em várias oportunidades. Já pensou o que passa um técnico de futebol? Aplausos hoje, vaias amanhã. Sou muito acostumado a essas coisas. Nunca me preocupei com situações emergenciais de aplauso ou reprovações. Procuro fazer tudo com tranquilidade, não precipito decisões, até porque decisões precipitadas podem levar ao erro. Procuro sempre ter prudência e analisar as coisas bem para não cometer erros. Depois de cometidos, não adianta mais querer corrigir. Então tem de ter muita prudência, inclusive no julgamento dos outros. É preciso sempre cautela para julgar. Sempre cultivei o hábito de ouvir as pessoas. Se alguém vem se queixar de uma pessoa, procuro sempre ouvir o outro lado também. Dar ouvidos ao outro lado da questão também está dentro da prudência. Sempre fui simpatizante da prudência.
Folha O senhor nunca havia sonhado em ser prefeito?
Scaff Não, mas em uma ocasião eu quase saí candidato, mas por emergência. Foi em uma campanha em que o então MDB apresentava três candidatos: Belinati, Richa e o Alvaro Dias. Na Arena estavam o Neco Garcia, o Mário Stamm e tínhamos de arrumar um terceiro nome. E como não surgia este terceiro candidato, no fim quem teve de ir para o sacrifício fui eu, que na época era exatamente o presidente do partido. Mas na última hora, faltando apenas duas horas para começar a convenção, com a presença das maiores autoridades da Arena, nós conseguimos convencer o doutor Pedro Vasconcelos, que inclusive faleceu há pouco tempo. Ele acabou saindo o terceiro candidato do partido.
Folha A partir deste mês os partidos dão a largada na corrida eleitoral. O senhor teme ser alvo de críticas? O que deve mudar em sua administração durante este período de eleições municipais?
Scaff Não muda nada. Já recebi a visita do candidato do PMDB, Luiz Eduardo Cheida. Foi uma alegria, uma visita de cordialidade. Sou amigo de políticos de todas as facções, Antonio Belinati (PFL), José Richa (PSDB), o ex-prefeito Dalton Paranaguá (PSDB). Não vejo nada de mais em ser amigo destas pessoas. Neste período político vou atuar com uma serenidade impressionante. Todos os candidatos que quiserem serão recebidos. Se eu puder fazer algo por eles, se for dentro da possibilidade da prefeitura e honesto, vão ser atendidos. Todos os candidatos terão o mesmo respeito de minha parte. Não tenho que favorecer e nem prejudicar ninguém.
Folha O prefeito afastado Antonio Belinati sofreu um desgaste com o Legislativo depois de apresentar uma fita em áudio e vídeo denunciando uma conversa entre ele e dois vereadores, que segundo Belinati, representava uma negociação para impedir uma Comissão Processante. Scaff na prefeitura representa o fim desta desavença entre Legislativo e Executivo?
Scaff Tenho orgulho em dizer que tenho o apoio incondicional dos 20 companheiros da Câmara de Vereadores de Londrina. Nestes três anos e meio de atividade no Legislativo eu só fiz amizades. Nunca tive uma discussão qualquer ou faltei com respeito com qualquer um dos vereadores. São companheiros extraordinários, que, inclusive, me incentivaram muito a vir para a prefeitura. Em uma solenidade, na quarta-feira passada, aqui no gabinete, que geralmente não reúne mais do que quatro vereadores, havia doze representantes do Legislativo. Quero dizer que vim para cá apoiado por todos os 20 companheiros. Então os vejo com simpatia. Londrina vai assistir na sequência ao grande relacionamento que vou ter com eles, enquanto eu estiver prefeito.
Folha O senhor então pretende atender aos pedidos dos colegas vereadores?
Scaff Tudo dentro da legalidade será atendido com o maior prazer. O vereador representa o povo. Sou vereador e sei o quanto chega de pedido. Entendo perfeitamente. Todo o pedido que sentir ser justo será atendido sim. Um vereador trabalha no atendimento de pessoas. Eles (os vereadores) para mim têm um significado muito grande. Portanto dentro da legalidade atenderei a Câmara.
Folha É natural que os pleitos aumentem neste período eleitoral. Como o senhor pretende proceder?
Scaff É como eu disse. Não quero saber quem ou qual é o partido do vereador, mas dentro da legalidade e, desde que eu possa atender farei isto. Jamais eu vou deixar de atender por apoio a alguém. Não vou fazer o impossível e atender aquilo que não posso. Só que não vou enganar o colega. Se puder eu falarei sim, mas se não puder eu direi da minha impossibilidade.
Folha O senhor além de prudente é muito bem-humorado. Mas dá para manter o bom humor tendo de administrar tantos problemas, crise de caixa e a pressão do dia-a-dia?
Scaff (Risos) Você mesmo respondeu. Já pensou administar problemas grandes e ainda mal-humorado? Aí acho que as coisas só pioram. Costumo brincar muito, inclusive com os jornalistas. É minha maneira de tratar as coisas.

mockup