A divulgação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE trouxe: com 1,95 filho por mulher, a taxa de fecundidade no Brasil não alcança nem a taxa de reposição populacional (dois filhos por casal). Se as brasileiras têm menos filhos hoje do que tinham nas décadas passadas - em 1960, eram 6,3 nascimentos por mulher - a tendência seria que fossem mães cada vez mais tarde. Seria.

Na contramão deste fenômeno, as taxas de gestação na adolescência só fazem crescer. De cada quatro partos no Brasil, um é realizado em meninas com menos de 18 anos. Quem traz os números e contextualiza os porquês de os jovens terem acesso às informações mas simplesmente descartá-las na hora do sexo é o psiquiatra e especialista em comportamento e sexualidade Jairo Bouer. Em entrevista à FOLHA, Bouer, que esteve em Londrina para evento realizado pelo Sistema Positivo de Ensino, revela: por confiar na estabilidade do namoro, meninas são as primeiras a deixar de lado o preservativo.

Por que o Brasil continua com taxas altíssimas de gestações na adolescência? A falta de informação é a maior justificativa?
Não se trata da falta de informação ou de acesso aos dados, se trata de como eu processo essa informação. A informação está aí. Nas meninas de classe média, por exemplo, quando fazemos pesquisas entre garotas que cursam o Ensino Médio em escolas particulares, verificamos que quase 10% delas engravidaram. Entre as camadas menos favorecidas, essa taxa oscila entre 15% e 20%. Hoje, no Brasil, de cada quatro partos, um acontece em uma menina com menos de 18 anos.

Segundo o Ministério da Saúde, 40% das adolescentes que dão à luz voltam a engravidar em até três anos...
Há pesquisas que vão além e trazem que metade das meninas que engravidam na juventude vão repetir a gestação ainda na adolescência. Uma vez tendo esses filhos, a maior parte delas deixa a escola, resultando na evasão escolar, não segue no trabalho e dificilmente se vincula afetivamente ao garoto pai da criança. Essa segunda gestação é de outro pai. Recentemente, num bate-papo, a diretora de cinema Sandra Werneck, que dirigiu um documentário intitulado ''Meninas'', contextualizou: o documentário, feito em 2006, trouxe meninas com menos de 18 anos que haviam engravidado. Agora, em novo contato com as meninas, ela constatou que todas voltaram a engravidar.

Qual a orientação a ser passada para os jovens?
Uma dica: você que está informado, que está na escola, use a informação na prática. Reitero que tudo é uma questão de como processo a informação que tenho. Às meninas que estão engravidando muito cedo pelo desejo de serem mães, vale se perguntar o quanto vão ter de abdicar de escola, trabalho, qual a sobrecarga na estrutura familiar que vão gerar e a dificuldade de se vincular a esses parceiros. Trata-se de uma questão mais social que educativa: se inserirmos como pensamento geral de que primeiro é bacana terminar a escola, cursar a faculdade, obter um trabalho e ter um projeto de vida, certamente essas perspectivas de um ponto de vista social farão com que as meninas adiem esse projeto de serem mães.

A polêmica em torno das máquinas de camisinhas está aí. Há quem as defenda, como método eficaz de contracepção e há quem as considere a porta de entrada para a banalização do sexo. Qual lado o senhor defende?
Problemas complexos, soluções complexas. Não há apenas uma solução para essa questão. Eu, particularmente, acho que a máquina de camisinhas aproxima as pessoas, nas escolas, da proteção. Mas ela tem que ter um motivo, uma contextualização para ocupar determinado espaço. Não basta chegar nas escolas e instalar, como se fosse uma máquina de refrigerante em que bastou ela estar lá e dispensa explicações. A máquina de camisinhas tem que estar nas escolas como o prosseguimento de uma série de atitudes de prevenção e discussão desse tema em sala de aula, com, talvez, o desencadeamento de um processo de prevenção. Não como um fato isolado.

Em relação ao sexo entre jovens, o que podemos tirar como conclusão, entre mitos e tabus. Eles estão fazendo sexo mesmo?
Sem dúvidas os jovens estão fazendo sexo. Todas as pesquisas mostram que mais do que nunca, aliás. Os jovens começam a fazer sexo e rapidamente se tornam ''habitues'' do sexo, ou seja, fazem sexo com frequência. Os meninos, em média, em torno dos 15 anos, e as meninas a partir dos 15 anos e meio. Metade dos meninos e um terço das meninas já tiveram sexo completo antes dos 15; e, quando pegamos a faixa dos 16 aos 19 anos, 70%, 80% dos meninos têm atividade sexual frequente. As meninas, em torno dos 70%. Na faixa etária dos 20 aos 24, quase a totalidade da população faz sexo. É um fenômeno. As pessoas começam cada vez mais cedo, têm mais parceiros e parceiras e precisam aprender a lidar com a questão da proteção. Essa é a maior verdade.

Mas as informações estão aí: nove entre cada dez jovens estão cientes dos riscos de fazer sexo sem camisinha...
E as pessoas insistem em deixar de usar a camisinha à medida que as relações vão se estabilizando. É difícil convencer os jovens em relação à manutenção da camisinha. As meninas, inclusive, deixam a camisinha antes, pois confiam na parceria que estabeleceram. Esse bloqueio emocional tem de ser deixado de lado. Dados mostram que quase um terço dos meninos têm relações paralelas além da relação oficial.

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