O atual modelo de industrialização adotado no Brasil, voltado exclusivamente para a produção, está ultrapassado e precisa ser reformulado com urgência. A avaliação é do do professor e economista Fernando Antonio Sorgi, da Universidade Estadual do Norte do Paraná (Uenp).
Ele diz que o setor, que já passou pelo ciclo das chaminés, está superando a era da informação, e deve ter uma nova prioridade a partir de agora. ''Nós estamos na fase da espiritualização, onde o foco é o ser humano e a indústria é a ferramenta'', defende.
Para se alcançar o novo modelo, aponta ele, é preciso aumentar o investimento em educação, inclusive no ensino superior, com o objetivo de melhorar a distribuição de renda, hoje muito concentrada no setor produtivo.
O economista diz concordar com a avaliação do governador Beto Richa (PSDB), que recentemente afirmou que a falta de infraestrutura adequada prejudica o desenvolvimento das cidades interioranas. ''Nós temos a obrigação de começar a preparar a infraestrutura para que o interior se torne atrativo'', aponta.
Por que se fala agora em priorizar o desenvolvimento humano mesmo no setor industrial, que sempre foi voltado a otimizar a produção?
Porque a nossa população é uma população crescente. E quando você fala em desenvolvimento humano, você fala em melhoria de qualidade de vida das pessoas. A economia é uma ciência humana, é uma ciência social, que busca o bem-estar de todos. Quando a gente analisa números friamente, é com o objetivo de tentar alcançar o bem-estar seu, da sua familia, de todos. A população cresce e as nossas necessidades aumentam a cada dia porque nós nunca estamos satisfeitos com o que temos. Para que todos nós tenhamos as nossas necessidades atendidas, precisamos melhorar o nosso crescimento, precisamos ser mais eficientes na nossa produção.
É possível conciliar esse crescimento com a escassez de recursos naturais?
Isso é um agravante. A gente tem recursos escassos e temos que nos preocupar também com a sustentabilidade, com os recursos naturais, com o meio ambiente. É uma equação que nós temos que fechar com cada vez mais pesquisa, desenvolvendo essas pesquisas para que possamos ser mais eficientes na utilização desses recursos. A intenção é que, com uma quantidade cada vez menor de recursos, possamos atender as necessidades humanas e conseguir ter um crescimento de PIB (Produto Interno Bruto) cada vez melhor.
E para se chegar a isso depende também de conscientização...
Não é só conscientização. A conscientização, eu acredito, já acontece. A gente percebe isso com os nossos filhos e nossos netos. Há algumas décadas não se discutia isso na escola. Mas essa conscientização é cultural e não acontece a curto prazo, só a longo prazo. A própria pesquisa de tecnologia nos traz informações e dados para que possamos atender a esses problemas de ordem ambiental. A conscientização é importante, mas antes dela deve vir o conhecimento, a educação. Nas universidades devem ser desenvolvidas pesquisas que possam se transformar em teses aplicativas à sociedade e não apenas teses que ficam arquivadas nas bibliotecas. Elas realmente podem contribuir e muito para que a gente possa resolver os problemas de desenvolvimento humano. E o desenvolvimento humano não é só número, é resultado. O número é apenas um indicativo, uma ferramenta para que tenhamos ali um olhar de observação: o que nós vamos fazer com isso?
Nesse contexto, a educação é mais importante que a industrialização?
Sem dúvida. A industrialização eficaz, focada no que o mercado exige, é a industrialização que tem a gestão adequada de pessoas. Não adianta só produzir. Hoje nós estamos em uma outra fase, estamos na fase do ser humano, na fase da espiritualização, em que o ser humano é o foco e a indústria é a ferramenta. A industrialização antiga é a da chaminés, mas hoje esse ciclo está ultrapassado. A fase da informação também está ultrapassada. Hoje nós estamos na fase da gestão humana. Não adianta termos indústrias adequadas, tecnologia adequada, equipamentos, se não tivermos pessoas que saibam utilizar isso e se relacionar entre si. Eu tenho que fazer um projeto não porque o projeto é importante, mas porque eu quero ver as pessoas felizes, podendo pagar o seu médico, podendo escolher os alimentos que querem comprar. Com isso você diminui os problemas de segurança, de saúde. Os gastos que temos com segurança e saúde seriam todos minimizados se tivéssemos gastos mais adequados no ensino e na educação.
O governador Beto Richa declarou recentemente que falta infraestrutura no interior, o que prejudica os investimentos para as mais diversas regiões do Estado. O senhor concorda com essa análise?
Eu não tenho dúvida nenhuma. Aliás, um dos pré-requisitos para que você consiga ter desenvolvimento é ter infraestrutura, o que é algo muito amplo. Vai desde o saneamento básico até um aeroporto. Nós precisamos ter rodovias adequadas. Todas as nossas rodovias são pedagiadas. De Ourinhos (SP) a Londrina existem dois pedágios e não há uma rodovia duplicada. É preciso ter uma condição de fluxo mais adequada. Aqui é caminho para o Mercosul e não há aeroportos adequados para esse tipo de transporte. Nós precisamos de portos adequados, não só para a produção agrícola. Além disso, é preciso ter plantas adequadas para as nossas indústrias. Nós temos a obrigação de começar a preparar a infraestrutura para que o interior possa se tornar atrativo.
E o que precisa ser feito para melhorar essa infraestrutura?
O governo tem que ter olhos para o Estado como um todo, para o interior, ou seja, para o Norte Pioneiro, para a Região Metropolitana, para o Noroeste, para o Centro-Norte. Mas a gente tem que saber o que o interior quer, o que o Norte Pioneiro precisa e assim por diante. Nós, que moramos aqui, precisamos ter um projeto adequado para levar ao governador, provando que este projeto é viável e que nós podemos trazer desenvolvimento humano. Precisamos de investimentos em determinadas áreas. Precisamos ter uma postura de que sabemos o que queremos. Aí sim o governo vai saber onde investir. Agora, é inegável que são necessários investimentos em infraestrutura.
Por que a concentração de renda continua alta em quase todo o Brasil?
A concentração de renda está diretamente ligada ao conhecimento e à formação das pessoas. Quanto mais conhecimento temos, mais aumenta a nossa capacidade de produzir e, com isso, os nossos recursos. Mas tem uma grande parte da população que não tem acesso ao ensino superior, não tem conhecimento. Então, os salários dessas pessoas é inferior aos salários daqueles que conhecem mais. E o que acaba acontecendo? A renda fica concentrada naqueles que mais conhecem, naqueles que mais produzem. O conhecimento é fundamental para uma distribuição de renda mais equitativa. Nos países que tiveram um desenvolvimento muito grande nos últimos tempos, como a Coreia do Sul, por exemplo, há a descentralização da renda. Ela é mais bem dividida porque há um número bem maior de pessoas com nível superior. Qualquer profissional hoje que tem conhecimento, que tem leitura, que saiba fazer pesquisa e que se dedique, pode ajudar o País a se desenvolver, e com isso ele vai ganhar mais dinheiro. Quanto mais gente preparada, menor é a concentração de renda.

mockup