A edição do jornal O Estado de S. Paulo, no último dia 24, é um retrato perfeito do momento político nacional. Aliás, do que se repete em todos os anos eleitorais. Mas só nos anos eleitorais. No caderno Cidades, a manchete de capa anuncia que ''Marta descobre o óbvio: ônibus são ruins''. Logo abaixo, uma foto ocupando quatro colunas mostra a prefeita de São Paulo em pé num coletivo completamente lotado. A legenda afirma que ''Depois de pagar a passagem, Marta ficou indignada com a falta de dinheiro para o troco''. E desabafou: ''É um desrespeito total''. Antes de embarcar, ainda segundo o jornal, a prefeita perguntou a uma usuária sobre o que precisava ser melhorado. ''Tudo'' respondeu a passageira.
O exemplo ocorrido na capital paulista se adapta perfeitamente a quase todas as cidades brasileiras, por extensão, aos Estados, independente da ideologia ou partidos políticos a que pertençam os mandatários. A dúvida que paira sobre a ''tigrada'' é se, de fato, a prefeita não tinha conhecimento que os ônibus urbanos da paulicéia são verdadeiras gaiolas apinhadas de gente por todos os lados. Não é preciso ser doutor em transporte coletivo para saber que o sistema, tanto nas capitais como em cidades de médio e grande porte, está exaurido, ou como disse dona Marta, é ''ruim''.
Há séculos que os políticos brasileiros, em todas as instâncias da vida pública, transformam o povão em verdadeiras massas de manobras. Daí que, em anos eleitorais, a caixa de ilusões é aberta e tanto os governantes como os que aspiram chegar lá, saem às ruas para cumprimentar o povo, fiscalizar obras, dar satisfações aos eleitores, fazer promessas e até andar de ônibus. O grau de populismo e demagogia é variável, mas os interesses são sempre o mesmo: o voto. Aqueles que não cumpriram as promessas anteriores e querem permanecer, se justificam de todas as formas; outros, garantem a continuidade no que deu certo e a reformulação dos fracassos; um terceiro promete mundos e fundos, o paraíso na terra; sem esquecer os que contestam tudo e todos, como se fossem os detentores do monopólio do saber. O lamentável é que as críticas, autocríticas ou mesmo decisões de governo são feitas às vésperas das eleições para durar até o pleito.
No Paraná, em 1998, quando da reeleição do governador Jaime Lerner, um acordo entre o governo do Estado e as concessionárias reduziu os preços do pedágio nas rodovias paranaenses. Passada as eleições, tudo voltou como ''dantes no quartel de Abrantes''. Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin repete o gesto e vai subsidiar os contribuintes em 40%. O governo federal, por sua vez, garante que não irá reajustar mais os preços dos combustíveis e pede rigor a Agência Nacional de Petróleo (ANP) na fiscalização do setor, afinal, como explicar um aumento de 32,4% do gás de cozinha, de janeiro a junho, quando a inflação neste mesmo período não passou de 2,94%; a taxa básica de juros é reduzida de 18,5% para 18,0% ao ano, quando ninguém esperava e ainda que o próprio candidato do governo, senador José Serra, seja um crítico ferrenho da política de juros altos; a liberação dos recursos para o pagamento do FGTS, depois de uma série de trapalhadas oficiais, finalmente deve ser concluída. Sem falar nas incontáveis obras iniciadas - e nem sempre concluídas - às pressas para arrebanhar apoios políticos. Os exemplos não se encerram por aqui, ao contrário, poderiam se arrastar por laudas e laudas de papel. Quem não se lembra do Plano Cruzado, em 1986, que explodiu após a vitória esmagadora do PMDB em todo o país?
A questão é porquê apenas em anos eleitorais isso se sucede? A sensação - ou a quase certeza - é que os políticos insistem em minimizar a capacidade de raciocínio da patuléia. Mesmo assim, as falácias, o populismo, a farsa, a mentira, vêem sendo sepultados a cada ano pelo voto ou pressão popular. O povão se cansou de viver de promessas, chavões e slogans que nada acrescem e ao nada conduzem. A sociedade, apesar de alguns não crerem, é sábia e exige pouco: quer apenas dignidade, franqueza e seriedade no trato da coisa pública. Ou seria pedir demais?
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba

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