A política, na concepção da notável cientista política e mulher que foi Hannah Arendt, é a possibilidade de fazer surgirem acontecimentos imprevisíveis na história, capazes, obviamente, de contribuir para melhorar a condição humana.
Neste último Natal do milênio, apesar dos esforços de personalidades importantes, como o papa João Paulo II – que pediu aos políticos para deterem os efeitos negativos da globalização e trabalharem pela paz, por meio do desenvolvimento – não foi possível dizer que a política deu bons resultados.
A guerra entre judeus e palestinos faz cada vez mais vítimas inocentes. A volúpia de lucro das nações ricas e de suas corporações aumenta, dia a dia, a miséria no mundo e destrói as esperanças de desenvolvimento de países antes promissores, jogando-os no buraco sem fim das dívidas impagáveis.
Nos últimos anos, esse foi o rumo, entre outros, de Brasil, México, Indonésia, Tailândia, Coréia do Sul, Rússia e Argentina. Tais países, na ilusão de enriquecerem, acreditaram na panacéia do neoliberalismo global, o novo instrumento de recolonização do mundo. Por isso, abriram-se à especulação financeira, ao livre comércio e desregulamentaram suas economias. Resultado: de 1995 até agora, final do ano de 2000, todos foram forçados a contrair empréstimos externos, que somaram US$ 260,7 bilhões, sendo US$ 101,3 bilhões concedidos pelo FMI.
Nesse período, a dívida externa brasileira, embora pagasse juros e serviços de US$ 125 bilhões, subiu de US$ 130 bilhões para US$ 265 bilhões. A dívida interna passou de R$ 65 bilhões para R$ 325 bilhões, em 1999. É óbvio que alguma coisa está profundamente errada e gera tamanha drenagem de recursos dos pobres do mundo para os ricos. Esses, não satisfeitos, exigem, hoje, que os devedores dolarizem suas economias.
Isso precisa mudar, pela ação política nacional e mundial. Mas, no Brasil, vemos brigas inúteis e exibições de tibiezas e vaidades, em vez de ação. O presidente da República (membro licenciado) e o presidente de honra do PT (em exercício) integram o Diálogo Interamericano (DIA), fulcro do livre comércio e da mundialização neoliberal. Vencedor nos pleitos municipais, o PT pensa em vôos mais altos e fala em não rever a política de privatizações. Alguns de seus próceres querem manter o principal ministro econômico de FHC, caso elejam o próximo presidente.
Após a formação de equipes heterogêneas, pelos prefeitos de oposição recém-eleitos, o que podem esperar os brasileiros para 2001 e para o novo milênio? Dada a eleição de Bush Jr. à Presidência dos Estados Unidos – ele é defensor da troca da Amazônia pelo pagamento de nossa dívida externa – que indicou para secretário de Estado o general Colin Powell (cujo lema é apoiar, pela força, os interesses dos EUA no exterior), o horizonte é sombrio.
Resta pedir a Deus coerência, firmeza e coragem a nossos políticos, para a luta contra as injustiças que se fazem ao Brasil e as que o próprio País faz a milhões de brasileiros excluídos do festim do equilíbrio econômico.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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