Tempo de viver!
Compreensão, entendimento, racionalidade, empatia, sinais de vida inteligente, são vetores que escapam ao universo machista
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de dezembro de 2025
Compreensão, entendimento, racionalidade, empatia, sinais de vida inteligente, são vetores que escapam ao universo machista
João Gomes Filho 
Neste domingo (07/12), o país acordou em manifesto pela vida da mulher, naquilo que o machismo tem feito crescer de forma exponencial o número de feminicídios no Brasil.
Ainda que o movimento tenha se revelado certeiro e sua aceitação tenha sido grandiosa, há muita coisa a ser feita no sentido da grita pró vida da mulher e, penso, esse é um papel que nós outros, homens, não podemos deixar de viver – afinal, quem vem matando mulher, via de regra, somos nós...
Deveras, é a reprodução da cultura machista que ensaiamos desde o berço a responsável pelo assassínio da mulher, desde sempre, naquilo que há uma coisificação da mulher em nosso cotidiano, que a faz um valor atrelado a ideia de propriedade que nossos ancestrais, rudimentarmente, introduziram nos costumes de convívio.
A mulher, no Brasil, é vista como propriedade de seu marido e, via de regra, no entorno desta coisificação medieval, sedimentamos um entendimento (velado por vezes) que temos algum direito ao controle do corpo e da liberdade de escolha do sexo feminino.
Some-se a este pensamento limitado e abusivamente equivocado, desligado de qualquer vetor de racionalidade e/ou conjuntura científica, a proliferação dos discursos de ódio pela via das redes sociais e, assim, nosso cotidiano vem pontuando a proliferação alarmante do assassínio de mulheres.
Namorado que mata namorada, marido que mata esposa, ex-marido que mata ex-mulher, são cada vez mais frequentes em nosso cotidiano, o que alimenta um olhar de incredulidade, ao tempo em que convola a vida a uma triste estatística de supremacia de gênero, sem qualquer lastro racional.
Neste grotesco momento de aflição que ceifa vidas, assistimos a crescente proliferação de coaches da rede mundial a propagandear um ódio sem qualquer sentido e de caráter maligno a desfavor das mulheres.
Compreensão, entendimento, racionalidade, empatia, sinais de vida inteligente, são vetores que escapam ao universo machista, de sorte a permitir a abertura das portas do inferno quando um machista se sente diminuído em face da presença e da existência do sexo oposto.
Não sei se é apenas a sobrevivência de nossos costumes ancestrais quem sustenta o pensamento machista no século XXI, naquilo que a imbecilização de nosso modelo de sociedade se anuncia na falência de uma visão racional de convívio.
As fake news vieram, ao que parece, para ficar – e isso tem um custo...
Assim, a proliferação conceitual do equívoco valorativo que tem permitido ao homem olhar a mulher como se propriedade sua fora, alimenta e abastece a mão que empunha a arma, na busca do sangue a ser derramado.
Esse desvalor conceitual aprisiona a vida de muitas mulheres em mãos de infelizes cuja lembrança de dignidade não acompanha a metáfora da vida, na contratação equívoca do mal querer, enquanto resposta a contrariedades e frustrações.
Há relatos soltos em veículos de informação e até na rede, dando conta que uma recusa a um qualquer assédio, tem sido motivação para a morte de muitas jovens no Brasil – e se isso não for o fundo do poço civilizatório, não imagino o que se lhe possa superar em profundidade e irracionalidade.
Assim é que, de sociedade cansada do arquétipo machista, estamos nos tornando um bando misógino que exclui a mulher até de nossos sentimentos, como se não fossem elas a exegese da paixão que encanta.
Não sei, exatamente, como chegamos a esta condição – que, em verdade, é uma não condição, uma não verdade, uma mentira dita em nome de uma qualquer negação dentre as muitas que o século XXI esparrama pela vida. O que sei é que não podemos mais seguir por este caminho.
Em Londrina, o assassínio de uma jovem anos atrás desencadeou a criação de um observatório de feminicídios (a Néias), em face ao comportamento homicida que deságua no judiciário, com objetivo a dar voz às muitas mulheres vitimadas pela ação homicida de seus parceiros.
É um começo, mas falta mais. Falta a nossa presença enquanto homens que não se prestam a apenas observar a morte que provém da ignorância machista pela veia da misoginia que prolifera.
É preciso educar nossos filhos de uma forma outra, que lhes permitam reconhecer nas meninas mais do que nosso modelo limitado os tem possibilitado ver, em ordem a estabelecer que mulher não é apêndice nosso, não é ajudadora nossa.
Companheirismo, amizade, convívio, igualdade, paixão, sexo, literatura, cinema, arte, teatro, literatura. Nada disso existiria sem a mulher. Nós homens, tampouco, existiríamos sem as mulheres.
Viver é mais e a vida demanda caminhar pelas diferenças para aprumar os desencontros, naquilo que as frustrações são plantadas na criação machista e não desenvolvidas ao longo da existência.
Pela vida das mulheres e por nossa manifestação neste sentido, sempre!
Tristes trópicos.
Saudade Pai.
João Gomes Filho, advogado
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