Ao despedirem-se, no telefone, as pessoas se dizem: ‘‘Um abraço’’. Se mandam uma carta ou um recado, sempre finalizam com ‘‘um abraço’’. Mas quando se encontram, essas pessoas não se abraçam. Muito estranho. Sempre que se comunicam indiretamente, se despedem com ‘‘um beijo’’. Mas quando se aproximam, na maioria das vezes não se beijam. Muito estranho. Outras dizem frequentemente: ‘‘Eu te amo’’. Mas na prática têm medo de exercer o amor. Parece que receiam revelar-se amorosas.
Muitas pessoas dizem gostar que eu fale dessas coisas. Também me agrada. Mais ainda agora, ante-véspera da Páscoa, tempo de reflexão, de reconexão com a chama do amor universal. Nesta Páscoa, então, vamos renascer para um tempo novo, abraçar muita gente. Quem sabe isto vira mania nacional, assim como beber uma cerveja! Ao invés de nos enfiarmos dentro dos templos para ouvir o pregador nos dizer que somos pecadores e que temos que sofrer como o cão para alcançar o céu, vamos sair por aí sorrindo e abraçando todo mundo. Isto pode virar mania nacional, como gostar do futebol, e isto será bom.
Templos. Bom que eles não tivessem tetos, que assim os fiéis poderiam contemplar as estrelas...
Páscoa. É tempo de nossa ressurreição para o grande entendimento, do retorno ao oceano de luz de onde somos originários.
Nesta Páscoa vamos nos sintonizar com a Fonte, com a alma do universo, em síntese Deus. Porque somos Deus, nós o compomos e Deus se compõe de todas as coisas, porque Ele é tudo aquilo que existe. Ressuscitar para a consciência da luz. Porque somos celestiais e não temos limitações. Não vamos então permitir que nos limitem, que nos subjuguem com esses ensinamentos equivocados que através dos séculos têm mantido a humanidade atrelada a angústias e sofrimentos, a idéias de pecado e de demônios nos encurralando, com igual número de ‘‘salvadores’’ para nos dizer que estão ali para afastá-los. Nesta Páscoa vamos nos recolher ao próprio silêncio, cerrar os olhos para enxergar nosso Deus interior; tapar os ouvidos e ouvir a voz dAquele que nos fala. Que Ele não nos impõe limitações.
Nesta Páscoa vamos nos reconectar com a Fonte e beber dela; renascer para a luz, de que somos feitos. Porque o corpo sim é carnal, voltará ao pó, mas enquanto pulsa ele abriga a essência, que é a partícula de Deus em nós, e como tal somos Deus. Somos muito grandes aos olhos do Criador, embora nossos pretensos orientadores espirituais terrenos queiram nos fazer pequenos. O amor de que tanta se fala é essa condensação divina de que somos compostos, por isso que o amor sempre triunfa sobre as incertezas e os medos. Porque os medos são limitações que nos impomos (ou nos impõem), são ilusões, algo inconsistente mas que alimentamos e tornamos real. Nesta Páscoa vamos abraçar também os nossos medos, encará-los de frente, purificá-los com a chama crística que carregamos por herança divina, liberá-los e preencher com ela todos os vazios.
Nesta Páscoa vamos comer todos os ovos dos coelhinhos-da-páscoa, e nada de choramingar lamentações nem ficar mendigando as graças de Deus, eis que Ele já nos dispôs todas. Vamos nos recolher ao silêncio interior e ouvir o sussurro da alma. Olhar para as estrelas, mas sobretudo nos recolhermos para a reconexão com o Deus que habita em nós, porque Deus não é um ser à parte da Criação, mas a própria Criação, e nós somos isto: a unicidade de toda a Criação. Ressurreição é a remoção do véu que oculta o conhecimento desta verdade. E pecado (palavra grega que quer dizer encobrimento) é termos vivido encobertos por esse véu, ocultando a luz, por isso mais expostos à manifestação dos nossos egos - que as igrejas pintaram como demônios, para nos incutir medo e submissão - e os egos geram, naturalmente, nossas imperfeições. Entre elas a pouca vontade que temos de experienciar nossa divindade. Preferimos a cômoda situação de deixar que o pregador (ele mesmo cheio de dúvidas) cuide de nossa espiritualidade, e com isto bloqueamos nossa própria faculdade de pensar e encontrar nós mesmos as respostas.
As igrejas conferiram um caráter sentimental à fé, mas a fé é apenas uma natural convicção, o reavivamento da memória de nossa divindade esquecida. As igrejas, ao longo dos séculos, têm impedido o crescimento espiritual dos fiéis, inibindo-os com idéias de pecado, ameaçando-os com o fogo do inferno e tenebrosas punições e mantendo-os em constante estado de culpa e opressão. O diabo é manso diante da ‘‘ira de Deus’’ que pintam... Deixadas livres de tantas idéias de condenação as pessoas encontrariam mais facilmente os caminhos da verdade.
Ao final da caminhada, que tem sido longa e extenuante, um paraíso nos espera, e este paraíso pode ser aqui mesmo. Nós podemos construí-lo, e o faremos frequentando mais assiduamente o templo de nossa própria consciência, porque lá sim sintonizaremos Deus e ouviremos a Sua voz.

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