Temos que nos melhorar - Walmor Maccarini
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de novembro de 1998
Walmor Maccarini 
Não é uma verdade absoluta esta de que, para alcançar o bem-estar pessoal e a felicidade o homem tenha que aprender pela via tortuosa do sofrimento, mas é certo que momentos difíceis são boas oportunidades para ele repensar sua conduta e reaprumar os rumos de sua vida. A situação presente, no Brasil, com tantos alardes de crise, não é pior nem melhor do que sempre tem sido. As denominadas crises tiveram sempre uma origem psicológica, e por consequência assumiram contornos de realidade, pelo poder da mente e da palavra criadoras, mas se existe o que chamamos um mal é porque na sua bipolaridade está o bem, ou nem um e nem outro poderiam existir. A alma par de um problema é a solução. A doença tem o seu correspondente na saúde. Crises econômicas têm a sua polaridade na riqueza e na abundância. Então, é milenar quanto as estrelas que dentro do problema estão todos os componentes da solução.
O exercício da vida não deve ser uma escalada de medos e de fracassos, mas de triunfos, porque esta é a vocação do homem e o seu grande destino.
O homem tem estado exageradamente com os pés no chão, e até se ufana muito disto, mas caminham mais rápido e libertam-se mais facilmente das amarras desta vida aqueles que, sabiamente, também elevam a cabeça até às estrelas...
Que estejamos então com o pés no chão e a cabeça onde ela deve estar, ante a situação que ora nos assoma. Para a cabeça, o juízo. Se o governo não faz a parte dele bem-feita, façamos a nossa.
O que lemos nos jornais e vemos na tevê é que as empresas demitem trabalhadores, diminuem a produção, preparam-se para a crise. Então a crise virá se todos a prenunciam e aguardam sua chegada.
Se é verdade que não temos no governo um colaborador, porque o governo consome quase toda a receita com o empreguismo e as facilitações e nos cria mais embaraços que soluções, também é verdade que o empresário que demite passa a ser um agente fomentador de crise. Os custos de uma empresa não se resumem na mão-de-obra, mas esta é a primeira que o empresário pune, porque esta tem a capacidade de sentir e de se manifestar. Aquele que demite, como que busca uma repercussão de seu ato. Conter gastos, melhorar o gerenciamento, não produzem o mesmo efeito de propagação externa. Assim, vinga-se do governo, vinga-se nem sabe de quê. Talvez de sua própria insegurança e de sua incapacidade.
Se o lojista embute juros, nas vendas a prazo, de 80% a até 180% ao ano, e os bancos cobram juros de cheque especial de até 290%, quando a inflação oficial anual é de apenas 6%, então ambos se equivalem e merecem os mesmos anos de cadeia.
Para esses especuladores não há paraíso fiscal melhor do que o Brasil.
Nações de economias fortes e consolidadas não vivem de capitais especulativos, nem seus bancos são especuladores. No Brasil vivemos a máfia dos bancos, tão ou mais danosa e corrosiva que a original, porque também mata e caleja e destrói ideais; vivemos a máfia de ministros superpotentes e que se supõem infalíveis.
Mas independente disto, cada cidadão precisa assumir com mais responsabilidade a sua parte no processo. Ressalvadas as exceções, o brasileiro cuida mal de seu negócio, no mais das vezes não crê nele, e quem está empregado maldiz a empresa, o emprego, o ganho. Faz as coisas mal-feitas, com atraso e má vontade, não busca aperfeiçoar-se, não permite a expansão de seus dons de criatividade. Dá de ombros e diz que a empresa não é dele, é do patrão... Todos nós sabemos como é péssima a qualidade dos serviços profissionais, no Brasil, como é inqualificada a mão-de-obra. Como então esperar, a curto prazo, uma nação melhor?
Se caminhamos retos, os governantes nos seguem.
Aqueles que estão produzindo bons produtos, prestando bons serviços, operando dentro de uma linha de honestidade, confiantes no próprio negócio e nas próprias potencialidades individuais, os que preferem não ficar se lamuriando pelos cantos mas adotam posturas mais positivistas, estes estão indo bem e se expandindo. São pessoas que não temem concorrentes nem conspiram contra eles, antes se rejubilam com os seus êxitos.
As fórmulas não estão na realidade externa, mas nas mentes das pessoas.
Nós, brasileiros, não amamos o dinheiro, porque temos dito que ele é coisa diabólica. O gastamos mal, o aplicamos mal, não sabemos acariciá-lo. Dinheiro gosta de agrado e temos que proclamá-lo bem-vindo. Mas preferimos dizer que ele está difícil, e aí ele fica difícil; que o dinheiro é curto, aí ele encurta. O que determinamos, acontece. Dinheiro não é coisa impura. A impureza está em certas maneiras de o ganharmos e o uso que fizermos dele. Dinheiro foi feito para ser gasto, mas nos ensinam que é preciso aplicar na poupança, economizar. Quem sabe para a velhice, para que os filhos briguem e se matem por ele, quando o deixarmos como herança. Gastá-lo é preciso, ou a roda da prosperidade não gira. Gastá-lo além do ganho, é imprudência.
O brasileiro, geralmente, contempla a riqueza como algo ausente, que não é para ele; que o dinheiro, os carros e as casas de luxo são para os ricos. Como tal, decreta que quer continuar pobre. A riqueza só contempla quem a aceita e a considera bem-vinda e não a repudia nos outros.
- WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina


