Temos dente e não sabíamos - Gaudêncio Torquato
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quinta-feira, 04 de setembro de 1997
Gaudêncio Torquato 
A vantagem que um presidente intelectual leva sobre outros é a facilidade com que manobra o discurso, a ponto de transformar sofismas em verdades e vice-versa. Fernando Henrique está saindo melhor que a encomenda. Ele é do tipo que oculta informações nos jogos de soma zero, como no caso da anedota: que vergonha... Itamar. Você quer fazer-me acreditar que vai pendurar as chuteiras e se refugiar em Juiz de Fora. Acontece que eu sei que você realmente vai pendurar as chuteiras. É a mesma artimanha que agora ele usa para ver dentes na boca de uma população que, até então era considerada a mais desdentada do mundo.
O presidente demonstra ser um profissional da melhor estratégia. Primeiro, prova que ele e Deus são muito próximos, carne e osso. Só mesmo os idiotas e revoltados não percebem que a questão social brasileira está sendo resolvida com muita competência. A cada estocada das oposições, principalmente do PT, ele revida com uma fraseologia capaz de orgulhar o general Sherman, aquele norte-americano conhecido pela arte de produzir frases de efeito e a quem se atribui o conceito estratégico: ponha o inimigo nos cornos de um dilema. Pois é isso que o presidente-sociólogo está fazendo com os adversários.
A cada entrevista do presidente, sob o nível de soberba e onipotência. Não existe candidato que o ameace. Todos são pequenos diante da fortaleza do Real. Itamar? Ciro? Ah, esses são amigos, divergem a respeito de alguns pontos da política econômica, mas é claro que estão num andar abaixo dele. Sarney? E quem garante que o maranhense Ribamar disputará o jogo, quando a própria filha Roseana se declara contra a candidatura? Ademais, há de se considerar o manto litúrgico que veste o ex-presidente. Do alto da ex-presidência da República e da ex-presidência do Senado, iria se expor à comparações de estilo e de programas? Não seria uma diminuição para quem preserva imagem de respeitabilidade?
Lula, esse sim, é o candidato dos sonhos de FHC. Primeiro, porque ele não comprou roupas novas, continua a comer os esses do plural das palavras e fazer os mesmos diagnósticos. Para alguém que sabe manejar o discurso, exibir o troféu da estabilidade econômica e, de sobremesa, apresentar frangos, iorgutes e dentaduras, com o tom da sobriedade e da eloquência, será um presentão polarizar com um cara zangado como Lula. Até porque já não faz fricção na opinião pública, ao contrário de um Tarso Genro, cara nova e verbo denso.
E é por isso que Fernando Henrique está tão tranquilo. Seus ditos jocosos criam manchetes, como esse que garante dentadura nova na boca dos pobres. O pior é que até nossa imprensa, tão crítica, fica adormecida quando o presidente deita falação. Suas manifestações entram como ditos bíblicos nas cabeças mais exigentes. Se o país não caminha no ritmo adequado, é porque o Congresso é lento. As reformas dependem deles. E os parlamentares, por sua vez, não revidam, contribuindo para a cristalização da idéia de que o presidente está graus acima de todos os outros políticos.
No mundo presidencial, as alternativas são variadas, FHC sabe que se sua estratégia de negociações com as bases políticas falhar, restará o recurso da medição de forças. A redundância faz seu estilo, bem como a capacidade de antever possibilidades nos casos em que os adversários só vêem restrições. A força discursiva do presidente é uma tuba sufocante. O Brasil sem ele seria um vale de lágrimas. E de tanto repetir a idéia, a verdade tucana está, ocupando todos os ninhos. Não é verdade, por exemplo, que o bandido da luz vermelha tem a boca cheia de dentes e Sérgio Motta é um desdentado?


