Os protestos que se farão hoje e amanhã no Brasil, pela visita do presidente norte-americano George Bush, são acontecimentos naturais das democracias. Junto aos manifestantes está o Partido dos Trabalhadores o do presidente da República. Mas se ao chefe da nação brasileira incumbe as honras de Estado ao visitante, o partido é livre para manifestar sua postura ideológica, que nunca se afinou com as políticas externas dos Estados Unidos, marcadamente quando os republicanos estão no poder. Com a posse de uma nova direção, tendo à frente o deputado o ex-ministro Ricardo Berzoini, o PT militante busca renascer das cinzas depois que os escândalos da corrupção quase o extinguiram e, por pouco, não derrubam o Governo sob o seu comando. Se como poder governamental o partido revelou-se inapto e corrupto como os demais, na militância das ruas e dos palanques nenhum congênere o supera. Protestar, como irá fazer nestes dois dias, contra a presença de Bush, é do seu ideário e consonante com antigas práticas, outrora comandadas pelo seu histórico comandante, hoje supremo mandatário da nação. Ao lado do PT estão a Central Única dos Trabalhadores, a União Nacional dos Estudantes, o Movimento dos Sem-Terra e outras organizações de esquerda. No mínimo, coerentes com seu passado de lutas. ''Fora, Bush assassino!'', são frases já pichadas em monumentos públicos de Brasília e que, certamente, estarão também nas faixas das manifestações programadas. Mas não é esse movimento que o presidente americano e seu staff de segurança temem e sim atentados terroristas, não de inspiração brasileira mas dos lugares que se sabe. Os patrícios nada farão de grave contra o visitante, a não ser a manifestação pública de repúdio comandada pelos movimentos citados, mas o risco de algo inesperado acontecer nunca é descartado, porque os ódios gerados pelos norte-americanos têm sido muitos e os ardís dos grupos terroristas são surpreendentes, como se viu no episódio da derrubada das torres gêmeas. Não à-toa o presidente Bush traz 250 homens do seu sistema de segurança, aos quais se juntam outros 250 do Brasil. Todo o aparato instalado para proteger o poderoso presidente não é zelo brasileiro ou subserviência, como alguns cidadãos imaginam, mas um ônus de autoproteção que os próprios americanos criaram e carrregam consigo. Dar segurança a chefes de Estado que visitam o Brasil é rotina, e se a proteção que está sendo dada a George W. Bush chega a ser um verdadeiro aparato de guerra, pior para eles, por precisarem disso, e não para os brasileiros. Curioso é que, em face dessa paranóia (justificada, sem dúvida) do sistema de segurança norte-americano, as razões da visita do presidente Bush quase não são citadas pelos veículos de comunicação, a principal delas a intenção americana de ressuscitar a idéia da Área de Livre Comércio das Américas, mais conhecida como ALCA.

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