Tema agrário e descompasso entre ministros
Enquanto o presidente Lula fazia o seu périplo por países da África, sem-terras no Brasil invadiam não áreas rurais mas o interior do Ministério da Fazenda, habitat do superministro Antonio Pallocci, o detentor das verbas e que estaria dificultando liberá-las para o fim do programa agrário. Essa invasão é inusitada e remete, mais uma vez, para a constatação de que, se os sem-terra tomam de assalto propriedades alheias, improdutivas ou não, também não estão vendo grande progresso na solução da questão agrária, que sempre foi ponto forte do ideário do PT e, marcadamente, das campanhas políticas do hoje chefe do Governo. Também é inusitado o foco dessa operação comandada por um movimento dissidente do MST porque não visou Lula mas diretamente o ministro Pallocci. Os manifestantes proferiram palavras agressivas contra o ministro e contra sua política econômica, ao tempo em que manifestavam apoio a outro ministro, o do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rosseto. Este, como se sabe, é integrante da Democracia Socialista, uma ramificação radical do PT, com a qual se afina o pensamento ideológico do MLST, sigla de Movimento de Libertação dos Sem-Terra o invasor do prédio ministerial. Uma guerra intestina, porque irrompe dentro do próprio Governo líderes do MLST são petistas expondo e desgastando ministros. Se a estratégia de invadir um reduto ministerial dará resultado, só os dias futuros dirão. ''O Governo funciona bem sob pressão'', proclamou Bruno Maranhão, militante do MLST e um dos coordenadores da tomada do Ministério. Certo é que o Governo não avança na execução do projeto agrário, e Pallocci que tem as chaves do cofre demora em liberar os recursos orçamentários para aquele fim. E enquanto ocorre essa aparente sabotagem interna a um programa do próprio Governo, demonstrando que o presidente Lula não tem domínio pleno do poder e que prefere ser o garoto-propaganda do Brasil no Exterior e não o seu comandante o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, critica o ministro Rosseto pelo seu projeto de alterar os índices medidores da produtividade rural e, dessa forma, enquadrar mais propriedades como improdutivas e assim destiná-las à desapropriação. Os produtores de milho do Estado de São Paulo, por exemplo, dizem em que é impossível aumentar a produtividade. E no próprio assentamento de Pontal do Paranapanema os índices não atingem nem a metade do previsto, então o Ministério capitaneado por Rosseto teria de desapropriar a terra dos próprios assentados. O Núcleo de Estudos Agrários do Ministério argumenta que não se pode comparar sem-terra com produtores tecnificados. Estranho, porque uma reforma agrária consistente precisa ter essa tecnificação, ou será apenas um mero assentamento. E assim o produtor tecnificado é punido. São três ministros na redoma, com posturas diferentes sobre um mesmo tema. Uma desconcertante situação, demonstrando que falta consenso, até pela ausência de um comando, e este, obviamente, deve ser exercido pelo presidente da República.





