Tem gente com fome
Após tergiversar sobre os resultados do segundo turno das eleições municipais, e insistir, corretamente, que eles deviam ser analisados em conjunto com os do turno anterior, o presidente Fernando Henrique Cardoso reconheceu o óbvio ululante nelson-rodriguiano: os eleitores mandaram um recado pelas urnas. Isso ocorre em todas as eleições. Às vezes, porém, as forças políticas presentes nos pleitos só se preocupam com os resultados, lamentando-os ou festejando-os, e não ouvem, não querem ouvir ou, pior, ouvem errado por não ouvirem tudo o que os votos dizem.
FHC ficou com a última opção ao afirmar que os brasileiros pediram, nas urnas, mais ética na política. Que política? Claro: a do Executivo do próprio presidente que governa e seus ministros, dos governadores e prefeitos, com os respectivos secretariados; do Legislativo, nos três níveis, que faz as leis ou aprova as do Executivo correspondente; e do Judiciário, que, ao interpretá-las e aplicá-las, julga à luz do Direito, para fazer a melhor justiça possível.
Cansados de escândalos, os eleitores reclamaram, por certo, dos casos de corrupção e de impunidade que se sucedem no País. Mas esse não foi o único nem o principal protesto contido em seus votos. Outros há, mais importantes.
Só de juros e serviços da dívida externa o Brasil pagou, em 1999, US$ 127 bilhões, tirados, obviamente, do trabalho dos brasileiros. Mas, na hora de dar um salário mínimo digno aos trabalhadores, FHC diz não ter como fazê-lo, pois dinheiro não nasce como grama. Em 1992 lembrou, na Câmara Alta o senador Lauro Campos FHC dizia ser impossível ao Brasil cumprir, ao mesmo tempo, as duas exigências do FMI: equilibrar o orçamento e pagar a dívida externa. Isso implicaria sacrifícios para o povo, cujas necessidades ficariam desatendidas. Os Estados Unidos têm dívidas, mas dão aos trabalhadores salário mínimo alto e bons programas sociais. Como isso é impossível no Brasil, que, este ano, tem um superávit primário de US$ 30 bilhões?
Além desses aspectos, Lauro Campos revelou algo espantoso. No governo FHC, a participação dos trabalhadores na renda nacional caiu de 45% para 38%. Para recuperarem tais perdas, eles deviam ter um salário mínimo de R$ 1.003,67, algo em torno de US$ 530, e não os R$ 180, hoje equivalentes a menos de US$ 95. No Japão, explicou Campos, a cesta anual básica dos cachorros e cachorros dos assalariados é de US$ 36 mil. Feitas as contas, isso daria, a cada brasileiro (que produz a riqueza do país), cerca de R$ 5 mil por mês. É muito para nossos padrões? Mas US$ 95 de salário, que é tão pouco, não sai caro? Afinal, a baixa remuneração dos assalariados e o desemprego estão matando, hoje, o Brasil de amanhã.
Para ter idéia do recado real das urnas, lembre-se FHC dos versos de Solano Trindade, que até as marias-fumaça cantam: Tem gente com fome, tem gente com fome, tem gente com fome. E, cá entre nós: muita gente, muita gente, muita gente...
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília





