Falsificar remédios no Brasil parece mais fácil do que falsificar bebidas. O uísque falso pode ser desmascarado pelo sabor. O remédio, nem isso. Telefones, em princípio, não há quem falsifique. Mas podem funcionar tão mal que parecem falsos, como sabe quem tenha tentado fazer uma ligação de celular em São Paulo (ou de qualquer telefone no Rio).
Os telefones voltam a ser privados agora (já foram, quando se instalaram). Os remédios sempre foram produzidos e distribuídos, bem ou mal, por empresas privadas. Para que as telecomunicações privatizadas funcionem decentemente, o governo terá de criar a estrutura que não conseguiu montar no mercado de medicamentos (ou montou algum dia e deixou degringolar).
Vender as empresas públicas é só o início. Agora é que começa o mais importante - provar aos consumidores que as empresas privatizadas prestam serviços melhores, a preços razoáveis.
O governo pode aprender com os erros. Na Argentina, os compradores do sistema telefônico - entre eles a Telefónica espanhola, que levou os nacos mais atraentes da Telebrás - ficaram sozinhos, sem competição, nas suas áreas.
O resultado é que hotéis de Buenos Aires advertiam os hóspedes, há quatro anos, de que as tarifas telefônicas argentinas eram as mais altas do mundo. E recomendavam cuidado com o tempo no telefone, por causa do preço.
Aqui, pretende-se evitar isso pondo empresas-espelho para concorrerem, nas mesmas áreas, com os vencedores da privatização. E criou-se a Anatel para fiscalizar a qualidade dos serviços prestados por umas e outras.
Se der certo, a experiência pode ser útil para remodelar o controle e a fiscalização de outros péssimos serviços públicos brasileiros. O transporte urbano, por exemplo. É uma concessão pública explorada por empresas privadas, como passam a ser agora as telecomunicações.
Mas não inventaram ainda uma Anatrans que dê jeito nos nossos ônibus (está nos planos do governo, para ser justo). O resultado: o transporte urbano - e o rodoviário também - são dominados por oligopólios que servem mal e fazem o que bem entendem. Ao consumidor, resta espernear.
É tudo o que se quer evitar para os telefones. E o que se deveria ter evitado há muito tempo no caso dos remédios, muito mais grave: fabricantes desonestos e falsificadores de remédios matam e aleijam, não só atrasam ou irritam o consumidor.
Talvez falte ao transporte urbano grife de consumo. A classe média só percebe que ônibus existe e é importante em dia de greve, quando suas empregadas não conseguem chegar ao trabalho. Mas é um bom teste para candidatos e recandidatos: quem vai tratar os passageiros dos ônibus com a mesma atenção que merecem os donos de celulares?
- ARMANDO MENDES é jornalista em Brasília

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