Muitos estudiosos vêm refletindo sobre os efeitos da tecnologia no mundo contemporâneo. É quase consenso que os avanços tecnológicos dos últimos 100 anos acabaram se tornando mais uma ameaça à vida do que a garantia de plena segurança. São os paradoxos da história.
Temos, atualmente, ao nosso alcance uma maravilha incontável de artefatos que facilitam o nosso dia-a-dia, dando-nos conforto e prazer, como nunca nossos antepassados puderam experimentar. Há um século, por exemplo, se alguém tivesse dor de dente, ficava até três meses sofrendo dores atrozes. Hoje, em poucos minutos, podemos resolver a questão, de forma bastante prática. No entanto, diante de tanta sofisticação, crescem, assustadoramente, os riscos em nossa sociedade.
''O homem de hoje parece estar sempre ameaçado por aquilo mesmo que produz'', diz o Papa João Paulo II ou seja, pelo resultado do trabalho da sua inteligência e das tendências da sua vontade. Os frutos desta multiforme atividade do homem, com grande rapidez e de modo muitas vezes imprevisível, passam a ser não tanto objeto de ''alienação'', no sentido de que são simplesmente tirados aqueles que produzem, como sobretudo, pelo menos parcialmente, num círculo consequente e indireto dos seus efeitos, tais frutos voltam-se contra o próprio homem. Eles são de fato dirigidos, ou podem sê-lo, contra o homem.
Depois dos terríveis acontecimentos do dia 11 de setembro, passamos a meditar mais profundamente sobre o quanto nos tornamos vulneráveis pelo poder destrutivo da tecnologia. O horror daquele dia mostrou que ninguém está seguro contra a insanidade, de quem coloca a inteligência contra a vida humana, em grandes proporções. A tecnologia, portanto, de aliada pode se tornar uma poderosa inimiga.
Num mundo globalizado, de intensificação das trocas e ofertas de idéias, bens e serviços, temos ''o intercâmbio não apenas de bens, mas sim de bens e de males'', como afirma o sociólogo alemão Ulrich Beck (da Universidade de Munique), autor do clássico livro ''A Sociedade de Risco'' publicado em 1986. ''O que torna a produção e a distribuição dos males salienta Ulrich Beck tão determinante no mundo contemporâneo é a impossibilidade de escapar de suas consequências''. Para ele, a tecnologia é ''matriz do risco'' (''Folha de São Paulo'', 20/11/01).
A discussão sobre os efeitos da tecnologia em nossos dias cresce no debate entre intelectuais. Como uma das deusas da modernidade, a tecnologia parece não ter limites no seu afã de transgressão da ordem natural. E chega a ser impressionante como sempre ela é utilizada para fins bélicos, atingindo, muitas vezes, um grau tão sofisticado de crueldade e selvageria, que choca aqueles que ainda possuem um mínimo de sentimento humano e amor pela vida.
A tecnologia em si é um bem. Torna-se um mal quando utilizada mal. Temos que, portanto, criar uma cultura da vida que valorize o que o ser humano tem de melhor, não aceitando aquilo que ofende a dignidade de cada um, em nenhum aspecto. Tudo o que vem da inteligência humana deve promover a vida, em todas as circunstâncias.


- VALMOR BOLAN é professor e dirigente de instituição de ensino superior em São Caetano do Sul (SP)
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