Tecnologia para humanizar o atendimento médico
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sexta-feira, 24 de agosto de 2018
Isabela Fleischmann <br> Reportagem Local 
Usar a Inteligência Artificial já é rotina nas relações humanas, por conta de aplicativos presentes em smartphones que identificam rostos, sugerem músicas e filmes e traçam rotas, por exemplo. A ideia de que essa tecnologia poderia ser solução para as demandas da saúde brasileira é defendida pelo médico curitibano Fernando Carbonieri. O profissional, que lecionou na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de Londrina até 2016, esteve no município no dia 20 e falou à FOLHA sobre o futuro da medicina.
Quando cursava o terceiro ano da graduação na Faculdade Evangélica do Paraná, em Curitiba, se interessou por medicina futurista após convite para colaborar em pesquisa de iniciação científica. A capacidade de vislumbrar formas inovadoras de empregar a tecnologia na medicina o levou a criar o Academia Médica, um portal que, nas palavras dele, procura "falar o que a faculdade esqueceu de contar para a gente". Conforme o médico, a quantidade de informação na graduação já é grande, mas a vida real tem muito mais para apresentar aos profissionais. "São várias pessoas discutindo diversos conhecimentos", explica.
Aficionado por tecnologia, Carbonieri explica que a medicina sempre usou as ferramentas possíveis. "Usamos o máximo da engenharia, da arquitetura, do direito. Tudo integra esse mercado saúde. Por isso é sempre muito cara." Entretanto, o especialista pontua que neste momento as tecnologias estão ficando mais baratas e "é possível desenvolver mais com cada vez menos recursos". O campo de pesquisa da Inteligência Artificial, por exemplo, mostra que os processos médicos podem ser ágeis e que as práticas repetitivas pode ser eliminadas do cotidiano desses profissionais.

Como a Inteligência Artificial pode mudar o futuro da medicina?
A Inteligência Artificial vai ser mais uma ferramenta, como várias outras que a gente tem. O que ela nos dá é a possibilidade de dar mais tempo para o médico ser médico. Vai proporcionar que prontuários sejam melhores e que o diagnóstico seja mais apurado. Vai proporcionar que um médico possa ser mais humano a partir do momento em que ele não precise mais ficar tão preso ao computador. Ele não precisaria mais ficar preenchendo tabelas e documentando tudo porque terá um robô fazendo isso.
Faremos mais aquilo que nos faz médicos: o toque humano, o estar junto com a pessoa que adoece. Isso nos deixa, além de mais produtivos, mais humanos. Hoje a gente tem problemas muito sérios dentro da medicina que normalmente se traduzem como falta de humanidade. Isso é porque o sistema necessitou que o médico fosse uma máquina, uma ferramenta para preencher mais documentos. Hoje você entra em uma consulta e o médico fica olhando para o computador preenchendo fichas porque é necessário que ele faça isso. Mas isso ocupa muito o tempo da consulta. Esse médico está adoecendo em razão disso.
Há pesquisas nos Estados Unidos que demonstram que a maior causa frente a um quadro de burnout (distúrbio psíquico de caráter depressivo, precedido de esgotamento físico e mental ) de um médico é causado, em 60% das vezes, pela interação desse médico com o prontuário eletrônico. Isso o adoece e um médico doente não tem como atender adequadamente um paciente doente.
Pode ser que sim, que esses novos sistemas de Inteligência Artificial ou o caminho que a gente está trilhando em termos de tecnologia para fazer essa parte documental - essa parte chata do trabalho - melhorem a situação e tornem o médico mais disponível para o paciente.
Quais são os avanços recentes mais importantes?
As pessoas têm visto uma modificação completa nas especialidades que têm padrões muito bem definidos. Radiologia, por exemplo, é uma especialidade que tende a sofrer bastante. Isso porque hoje você tem sistemas de Inteligência Artificial que possuem milhares de radiografias em seus bancos de dados, e assim podem comparar fotos feitas na hora com esses bancos de dados. Isso já dá um certo tipo de diagnóstico e agiliza muito o trabalho. Entretanto, vai eliminar o trabalho de muitos radiologistas.
Tem várias pesquisas caminhando nesse sentido. Nos Estados Unidos, principalmente. Você vê empresas de placa de vídeos usadas em games e computadores para processamento de imagens trabalhando com grandes hospitais para ajudar o processamento desses bancos de dados de imagens nessa nova ferramenta.
Quais são os riscos da automatização dos processos médicos?
São vários. Primeiro é que você terá uma legião de pessoas treinadas que de repente deixam de ter o trabalho como elas sabiam realizar. Vamos ter que treiná-las novamente referente a uma nova tecnologia. Pode ser que ela [o médico] perca o emprego? Sim. São todos os radiologistas que vão "morrer"? Não. Alguns vão ficar. Principalmente aqueles que se especializam constantemente ou os que estão atentos a essas mudanças. Esses permanecem no mercado. Mas aqueles que são alheios às novas tecnologias terão de se reinventar.
Esse profissional que sabia fazer uma coisa e de repente essa coisa não é mais necessária do jeito que ele sabe fazer terá de se reinventar para aprender novas coisas. Esquecer o que ele sabia, ou deixar de lado, para aprender novas ferramentas.
Trabalhar com padrões computadorizados não é complicado já que cada organismo reage de uma maneira?
A medicina em si é uma ciência populacional. Eu sei que um tratamento é bom para você porque foi testado em uma população muito grande, de pessoas que são muito parecidas entre si. Hoje a medicina é tudo, menos personalizada. O que funciona para muita gente tende a funcionar para você. O nosso padrão científico diz que a gente precisa de uma confiança de 95%, ou seja, nesses 5% a gente ainda pode falhar e isso é científico.
Só que uma pessoa que tem uma doença não tem só uma doença, tem várias. Você não tem esse tipo de estudo correlacionando várias pessoas. Com o advento da Inteligência Artificial, a gente consegue construir megabases de dados, que contarão com uma maior variabilidade. Com esse tipo de tecnologia, consigo pensar em pessoas muito mais parecidas com você. Consigo individualizar o tratamento com base no conhecimento que tenho de várias pessoas espalhadas pelo mundo inteiro, validando isso com a genética e correlacionando com seu estilo de vida. Consigo desenhar um tratamento cada vez mais específico para você. É isso que a Inteligência Artificial vai proporcionar. Porque eu, sem ela, não tenho como mensurar esse conhecimento todo. Com o computador fazendo isso, é mais fácil.
A ideia é que a Inteligência Artificial seja usada como triagem ou que substitua o trabalho humano? Isso é viável?
A substituição do trabalho do médico não é plausível. O trabalho do médico vai se alterar, mas nunca será substituído. Mesmo porque o médico, com o fato da tecnologia estar evoluindo, vai ter que aprender a ser um cuidador novamente. E aos poucos você vai tendo um médico que vai precisar se especializar menos, saber mais sobre mais coisas, mas menos especializado a fundo. Isso porque ele vai ter um sistema para oferecer suporte para ele nessas outras especializações que demoram anos de prática. Então ele vai ter uma ferramenta diferente para trabalhar, uma nova alavanca que move objetos diferentes. A Inteligência Artificial e as novas tecnologias não são nada mais do que isso, novas ferramentas.
E se os pacientes tiverem seus dados médicos privados vazados pelo sistema?
Hoje a gente tem parâmetros que tentam garantir a segurança da informação e ainda não há nada 100% inviolável. Há novas tecnologias. A mesma tecnologia que é usada com as criptomoedas, os bitcoins. Você utiliza o blockchain para fazer essa segurança de validação entre vários computadores. Uma informação só pode ser aberta se houver validação de uma rede muito grande de blocos. O blockchain provavelmente ajudaria muito na segurança na informação e assim você desenha essas ferramentas para trabalhar com esse nível de segurança.
Há quem diga que o blockchain é muito mais seguro do que o que temos agora, mas também não é inviolável. Assim como você tem novas ferramentas, você tem novas barreiras. E serão barreiras até alguém transpô-las. Nossa criatividade está aí para isso.
Como funcionam os algoritmos de diagnóstico e tratamento?
Para fazer um algoritmo funcionar, você precisa de uma enorme quantidade de dados e também de um sistema de conhecimento e estatística desenhados para trabalhar em bases gigantescas. Ver o que se correlaciona com planilhas com milhares de linhas e colunas, o que nós também não conseguiríamos analisar. Então colocamos o robozinho para fazer essas correlações.
O segundo ponto é pegar conhecimentos já adquiridos pela humanidade. A gente tem um problema. Dobramos o conhecimento da humanidade a cada cem dias. Já se tem muita coisa para estudar e daqui a cem dias vai ter o dobro. Se você não tiver o computador para fazer essas correlações daquilo que você conhece com aquilo que você está vendo naquele momento, você fica dependendo da experiência humana.
Por que determinado médico sabe diagnosticar bem? Porque ele viu muito. É a mesma coisa do algoritmo, que vai se tornando melhor conforme vai adquirindo novas bases e informações. O algoritmo tem que ser ensinado constantemente. Quem é obrigado a ensinar o algoritmo de saúde? O médico. E aí a gente acabou de criar uma nova profissão para o médico, que é a de professor de algoritmo.
Qual é o limite do uso da tecnologia na medicina?
Na história médica você vê sempre a sociedade impondo limites para a exploração e procura de respostas. Se as regras tivessem sido seguidas naquele momento, os avanços jamais teriam acontecido. As regras são boas, são necessárias, mas a gente só tem esse nível de medicina nesse momento porque várias pessoas as quebraram durante a história.
Houve várias atrocidades por causa disso. Em época de guerra, a medicina evoluiu muito. Mas com que custo? O limite está na razão de uma balança em que sempre você tem que ponderar para que lado está pesando. A medicina nunca vai ter limite de verdade, desde que você não provoque mal a alguém. Daí a gente entra em várias outras questões, mas, por exemplo, o que é causar mal a alguém frente a uma pessoa que não tem mais esperança por causa de uma patologia? Será que você utilizá-la, com a autorização dela, para testar novas coisas, é correto ou não? Pode ser que sim. Pode ser que traga muita dor para ela, mas depois você resolva o problema.
Ou vai ser uma pessoa que você aprendeu muito com ela e infelizmente ela morreu ou então ficou com algum problema. Mas você aprendeu para testar de forma diferente. Isso não se faz mais. Hoje temos um comitê de ética muito atuante. Há relatos de que os Estados Unidos tiveram experimentos até a década de 1970. Mas, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, a ética médica foi criada justamente para impedir que você fizesse teste de forma empírica sem estar respaldado cientificamente para isso.
As instituições terão capacidade de implantar o sistema de Inteligência Artificial?
Sim. Até agora todas as tecnologias que foram surgindo em diversos negócios diferentes deixaram o negócio mais produtivo e mais barato. A gente está em uma região agrícola. Sabemos que cada nova colheitadeira que entra no mercado pode custar muito caro, mas dará um retorno porque as pessoas vão colher mais por causa dessa colheitadeira.
Na medicina a gente não tem isso. Uma nova tecnologia normalmente deixa todo o tratamento mais caro. Vai trazer mais informações, sim, mas vai deixar mais caro. Uma nova tomografia nunca vai ser mais barata do que uma tomografia anterior.
Quando a gente fala de Inteligência Artificial, a gente está atacando uma situação de desperdício de exames, diagnósticos e medicamentos. Você melhora processos, tem hospitais funcionando melhor, tem sistemas de saúde funcionando melhor. Você acaba despedindo muita gente, mas, por outro lado, entrega um serviço com maior valor para o paciente. Tem essa questão de fazer estudos em uma grande base de dados utilizando uma máquina para isso. Isso não cansa, não é como eu e você que cansamos durante o dia e precisamos das oito horas de sono. A Inteligência Artificial está lá trabalhando. É muito mais barato do que gente.
Tem várias soluções que já são usadas como sistema de suporte à decisão clínica. São de grandes empresas. A IBM está em alguns hospitais daqui e as grandes empresas do conhecimento estão voltando às atividades de Inteligência Artificial para fornecimento de conhecimento à beira do leito.
É uma realidade acessível? O Brasil tem recursos para implantar a Inteligência Artificial na medicina?
Tem. E a África também tem. Você tem, na sua frente, no seu celular, o tempo todo. O Facebook sabe exatamente como você está se sentindo neste momento. O Instagram ou qualquer sistema que saiba como você anda, por onde você anda, se você faz atividade física ou não, consegue correlacionar isso e ter uma mera ideia de como você é, como você age diariamente e como é a sua saúde.
Um computador é mais barato que gente. Em um país quebrado como o nosso, o computador vai continuar sendo mais barato que o pessoal e cada vez mais não serão necessárias pessoas para operar esses computadores. Funcionarão praticamente de forma autônoma. Pode ser um problema que hoje a gente não tem internet em boa parte das unidades de saúde? Pode. Mas é o tipo de coisa que o esforço não é tão grande para arrumar.
Com essas tecnologias vemos até uma situação de ficção científica de que a gente poderia viver para sempre. Como o senhor avalia isso, como estudioso da medicina futurista?
Há alguns autores que dizem que a primeira pessoa que vai viver 150 anos já nasceu. Tem gente que fala que a primeira pessoa que não vai morrer já nasceu. Pode ser que sim. O que costumo dizer a respeito da medicina futurista é que a gente não pode ficar colocando para dez, vinte, trinta anos. Tem tanta coisa que está mudando tão rapidamente que a gente não sabe em quanto tempo vai ter o inimaginável de novo. A internet, uma rede de computadores, era inimaginável dez anos antes de ser criada. Você tinha um computador conversando com outro. O celular era inimaginável. Você colocar todos os meios de entretenimento que existiam, máquina fotográfica, música, comunicador, TV, em um aparelho de 12x6, ninguém poderia esperar isso, e de repente aconteceu. Agora a gente tem um mundo em que vários "de repente aconteceu" aconteceram. E onde podem acontecer amanhã. E mudar tudo de novo.


