O atual estágio tecnológico da guerra e da mídia faz com que os bombardeios intensivos nas áreas dos conflitos sejam traduzidos pelo bombardeamento extensivo do público pelos meios de comunicação. Há uma saturação nauseante de informações de ataques de altíssima tecnologia, em tempo real pela televisão, e de imagens terríveis de mortos e feridos, principalmente crianças, pela mídia impressa. Uma demonstração diária de morte e destruição.
Os ''sites'' dos principais jornais do Brasil e do mundo mostraram no domingo, nas matérias de primeira página, contundentes imagens da guerra no Iraque. De um lado, as vítimas, e de outro, a destruição tecnológica de Bagdá. A par da guerra propriamente dita, trava-se a guerra da propaganda, em que a ''verdade'' é apresentada com o enfoque distorcido de cada uma das partes. No domingo, que seria de descanso do trabalho e de pausa na sobrecarga de informações bélicas aos assistentes passivos desta guerra cruel e distante, mas que se insinua em nossa vida, direta e indiretamente, a carga foi maior.
Um grande jornal de São Paulo mostrou na capa uma foto de criança, suposta vítima dos bombardeios, com queimaduras extensas e com ar sofrido. A análise da foto evidencia que é uma queimadura antiga, aparentemente com mais de trinta dias, portanto, de antes do início da guerra. Há alguns dias, a fonte oficial da Casa Branca comunicou que o vice-presidente do Iraque havia sido morto no bombardeio. Dois dias depois apareceu em entrevista na televisão. Já é um fato consagrado que, na guerra, a primeira vítima é a verdade.
Provavelmente, o único jornal, entre os grandes diários em todo o mundo, que mostrou na primeira página da edição de domingo imagem da guerra na porção inferior da página, na justa medida, foi a Folha de Londrina. Em destaque foi apresentada a matéria ''Salvando vidas''. Na foto, a médica, concentrada e com sorriso afável, cuida de um recém-nascido prematuro cercado de equipamentos de alta tecnologia e de custo, relativamente, baixo.
A vida da criança prematura, que é a mais vulnerável, pode ser preservada e levada adiante, em nossa inexorável projeção para o futuro. Uma homenagem à tecnologia voltada para a vida se sobrepondo à tecnologia da destruição e da morte.
Quantos hospitais seriam possíveis com os 70 bilhões de dólares destinados à guerra pelos Estados Unidos, sem falar nos 20 bilhões acumulados pela família de Saddam? A Redação da Folha foi muito feliz na escolha da matéria. No dia seguinte, entre os dez assuntos mais acessados na internet, estavam as duas reportagens ''Cuidados que salvam'' e ''Sara nasceu com 700 gramas''. Na valorização da vida a guerra pode ser vencida.
LÚCIO MARCHESE é médico em Londrina

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