TECNOLOGIA NO CAMPO - Pioneiro venceu piadas e desafios
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sábado, 02 de março de 2002
Sílvio Oricolli<br>Reportagem Local 
Mauá da Serra No dia 23 de abril de 1957, ainda com a impressão de estar ouvindo piadas e risos de zombaria de conhecidos e de outros agricultores, Yukimitsu Uemura, em companhia de mais três irmãos, chegou a Mauá da Serra para tomar posse de um sítio de 60,5 hectares. Vieram de Álvares Machado, no interior de São Paulo, precedidos pela fama de que a terra era improdutiva, onde só dava samambaia e sapé, sinal de que um solo ácido os esperava e que não rendia o suficiente para pagar o ITR (Imposto Territorial Rural). Arranquei muito toco a enxadão e machado, e queimei muita samambaia, antes de começar a plantar por aqui, lembra o pioneiro.
O próprio Yukimitsu reconhece que o pessoal tinha razão, principalmente os agricultores de boa parte do Norte do Paraná, onde o solo fértil, que não exigia manejo, sustentava as intermináveis lavouras de café. Só que a terra não era tão barata assim, como falavam. É verdade que o dinheiro de um alqueire de terra em Londrina dava para comprar quatro por aqui. Mas eu achei caro, comenta, sem se recordar do valor exato de quanto a família pagou pela propriedade.
O agricultor, no balanço dos 45 anos que passou em Mauá, diz que tem de agradecer a oportunidade de ter vindo de uma terra fraca, arenosa de Álvares Machado para outra, ácida. Eu cheguei aqui já conhecendo um pouco de tecnologia, porque a gente já calcariava e adubava a terra em São Paulo. Então, a alternativa que nos restava era corrigir a terra para plantar. E isto foi bom, porque tornou a propriedade produtiva. Acho que problema maior teve o pessoal da terra roxa do Norte do Paraná que nem conhecia adubo, ou melhor, achava que a palha do café é que era o adubo da época. Mas a fertilidade da terra acabou e tem gente complicada até hoje, comenta.
No próximo dia 23 de abril, ao comemorar os 45 anos de trabalho na hoje Fazenda Uemura, com 968 hectares, Yukimitsu certamente irá lembrar das dificuldades dos primeiros anos na região, plantando batata, no começo, e depois também arroz e trigo. Às vezes com alguma frustração. O saldo, porém, é positivo, pois, ao contrário de algumas famílias que ganhavam um pouco de dinheiro e iam embora, diante das dificuldade de cultivar o solo de Mauá, ele sempre investiu na propriedade parte do que ganhava e na compra de mais terra. Eu coloquei na cabeça que, como fui o primeiro a chegar aqui, seria o último a sair. E, pelo jeito, vou continuar por muito tempo, sorri.
Atualmente nos quase mil hectares da propriedade, Yukimitsu cultiva soja, milho, trigo, aveia, um pouco de feijão e também está começando um pomar de caqui. E foi por iniciativa dele que Mauá saiu na frente da maioria dos municípios paranaenses em tecnologia agrícola: em 1974 adotou o sistema de plantio direto, uma novidade que havia surgido em Rolândia. No início foi muito difícil, principalmente para controlar o mato, mas era a única alternativa para nós, do contrário a erosão já teria acabado com a agricultura por aqui, enfatiza o pioneiro, enquanto vistoria parte da lavoura de soja.
Yukimitsu cuida da fazenda com a ajuda de seis empregados fixos e um dos seis filhos, o Ademar. E, aos 73 anos de idade, e morando em uma casa de alvenaria que construiu em 1986, ainda se recorda que teve, com a família, de morar em um barracão. A primeira casa, de madeira, ficou pronta só em 1959. De fala mansa e muito atencioso, o pioneiro diz que não está preocupado com o valor do alqueire da terra em Mauá falam que custa entre R$ 15 mil e R$ 20 mil. Para ele, o que conta mesmo é a produtividade de suas roças: 9,04 toneladas de milho por hectare; o trigo e a soja empatam em 3,22 toneladas e o feijão, a mais nova cultura, tem rendimento de 2,47 toneladas por hectare.


