As tecnologias tomaram conta do mundo moderno e prometem estar cada vez mais presentes no dia a dia de pessoas de todas as idades. Saber usá-las, portanto, vai se tornando, aos poucos, uma premissa para quem quer estar atualizado. No processo de ensino e aprendizagem, a história não é diferente e os alunos se mostram cada vez mais preparados para utilizar em aula os recursos que já lhe são familiares fora do contexto escolar.
  Mas qual é o papel da tecnologia para a educação? ‘‘Nenhum. É o uso que se faz da tecnologia disponível na escola que tem papel na educação’’, responde a professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisadora na área de tecnologias na educação, Glaucia da Silva Brito. Ela defende que, sozinha, a tecnologia não resolve problemas educacionais porque na sala de aula é apenas mais uma ferramenta para ser utilizada. ‘‘Uma máquina sozinha não vai resolver problema nenhum. Se ela não for bem usada, não adianta ter uma sala super high-tech, com um professor tradicional. Ao contrário, vai piorar o processo de ensino e aprendizagem.’’
  Conforme a especialista, também não basta apenas saber utilizar a tecnologia, o professor tem de ser formado para saber o que usar, quando usar e como usar para poder dinamizar a prática pedagógica. ‘‘Alguns gestores ainda acham que é só encher a sala de aula de equipamento e o problema da educação vai estar resolvido. Isso não é verdade porque a tecnologia não resolve nada se não houver formação para os professores e eles não souberem incluir isso em seus planejamentos’’, afirma.

  Qual é o seu conceito de tecnologia?
  Tecnologia não é só o equipamento eletrônico, é um conjunto de conhecimentos especializados, com princípios científicos que se aplicam a um determinado ramo de atividade, modificando, melhorando, aprimorando os ‘‘produtos’’ oriundos do processo de interação do ser humano com a natureza e com os demais seres humanos.

  Como tem sido o uso da tecnologia na educação?
  No Paraná, por exemplo, há projetos bem sucedidos que são aqueles em que os equipamentos são instalados, é dada formação aos professores e eles não caminham sozinhos porque há sempre alguém ali apoiando, ajudando a pensar, ou seja, se tiver alguma dúvida, o educador sabe para quem ligar ou mandar e-mail. Os projetos que têm dado certo são aqueles em que as secretarias de educação oferecem estrutura de apoio ao professor, tanto de manutenção como pedagógico. Nos locais que instalam equipamentos e não disponibilizam esse tipo de assistência, o projeto geralmente não vai para frente.

  De que maneira as novidades tecnológicas são úteis para as aulas?
  Novidades tecnológicas são só novidades, não adiantam de nada. O que vale é o professor estar bem formado para utilizá-las, pois um uso inovador é que fará a diferença na sala de aula. Novidades tecnológicas sem formação não fazem nenhuma diferença na educação.

  Os professores estão preparados para usar os recursos tecnológicos avançados? Há capacitação para isso?
  Os professores não têm nas universidades e faculdades formação para o uso das tecnologias. Há uma grande necessidade de se planejar boas formações continuadas para o uso das tecnologias nas escolas. Como um profissional, o professor tem que se capacitar por conta própria. Por outro lado, se eu como gestor compro algum equipamento a ser utilizado na escola, tenho que oferecer uma formação continuada que seja aprimorada a cada ano. Não basta dar formação pontual, de uma semana apenas, ela tem que ter várias etapas durante o ano e oferecer apoio para o professor, caso precise. A secretaria estadual e algumas municipais têm núcleos de tecnologias e quando há esta estrutura, geralmente o projeto está indo com sucesso.

  Falta incentivo governamental para as escolas e instituições de ensino superior públicas utilizarem mais tecnologia? Nos cursos superiores, os professores, de forma geral, estão aptos a fazer da tecnologia uma ferramenta para a educação?
  As instituições de ensino superior têm tecnologias, o que falta para os professores que atuam nos cursos de Pedagogia e licenciaturas é formação também. A maioria dos professores do ensino superior utiliza as tecnologias para apresentar slides, mas não inova suas aulas. Fala-se muito em tecnologia na educação básica e se esquece do professor de educação superior, mas é ele que forma o da educação básica. E ainda temos muitos cursos em que o professor dá aula como se estivesse no século passado.
  Uma crítica bem forte que faço, pontualmente, é que muitas universidades encheram suas salas de lousa digital, têm todos os equipamentos disponíveis, mas falta capacitação do professor. O professor pode dar uma boa aula usando só o quadro e o giz, como pode dar aula nenhuma com lousa digital, conectado à internet, com um tablet para cada aluno. Na verdade, a questão não é tecnologia, é a formação que esse professor tem e a capacidade dele de inovar utilizando o que tem disponível. Ou seja, o professor tem que dar uma boa aula com o que ele tem, independentemente se é uma tecnologia eletrônica ou não.

  A maior dificuldade em relação ao uso de tecnologias como subsídio para a educação está nas escolas públicas?
  Não, esta é uma conclusão do senso comum. A questão não é se as escolas têm ou não equipamentos, a questão é metodológica. Escolas privadas estão cheias de equipamentos mas, muitas delas fazem um uso tradicional destas tecnologias. Há escolas públicas que não têm tantos equipamentos, mas os professores fazem um uso inovador do que está disponível nas suas aulas.

  Quais problemas educacionais podem ser resolvidos ou amenizados com a tecnologia? Como trabalhar essas inovações com os alunos?
  Nenhum problema educacional pode ser resolvido com a aquisição de uma tecnologia. O que tem que ficar claro é que em geral todas as tecnologias podem ser utilizadas em todos os níveis e modalidades de ensino para trabalhar diversos conteúdos.

  Os professores que não se atualizam correm o risco de serem substituídos, principalmente em instituições privadas?
  Quem fará a diferença é o professor que tem um compromisso com a formação do cidadão brasileiro, mediante um processo educacional dinâmico, em constante renovação e comprometimento com a qualidade.

  A sra. acredita que os educadores que não tiverem esses diferenciais podem ser excluídos do mercado com o tempo?
  Eu acho que não porque o que mais falta nos países de Terceiro Mundo é professor. Mas o que acontece é que ele está fazendo uma escola que não existe, desconectada do mundo atual e esse é o grande problema. Como disse Paulo Freire, o professor tem que ser do seu tempo. Então se hoje se exige o uso das tecnologias, se os alunos usam, o professor também deve usar. Mas não adianta colocar a culpa no professor, porque na verdade tem toda a questão da não formação.
  Há dez anos as pesquisas mostravam que os professores não queriam e tinham medo de usar as tecnologias, já as pesquisas de cinco anos para cá mostram que eles querem, mas também exigem formação. Houve uma mudança de cenário. É por isso que qualquer projeto de implantação das tecnologias em qualquer município tem que tratar também como se dará a formação dos professores.

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