O doutor em sociologia e professor da Universidade Estadual de Londrina Alexandre Brasil Carvalho da Fonseca, diz que o público mais atingido por opções ''sobrenaturais'' seriam os que sofrem mais com os problemas sociais, especialmente negros e mulheres. A tese que alguns autores da sociologia defendem é que nesse mundo pós-moderno, ''a tecnologia não foi capaz de responder às crises do homem''. Segundo Fonseca, essa tese vale tanto para as camadas populares, quanto para as médias e altas.
Um explicação encontrada pelo sociólogo para esse aumento na procura por crenças tão diferentes está no desenvolvimento da religiosidade da sociedade brasileira. De acordo com Fonseca, ''até os anos 60, 90% da população se dizia católica, mas a partir da década de 70 começou a ocorrer uma ''destradicionalização''. Este movimento estaria ainda em processo, mas já tem reflexos no comportamento social. ''Hoje, não se tem a obrigação de ser católico para ser aceito pela sociedade. Hoje o indivíduo pode não ser nada'', afirma o professor.
Como não há uma obrigação, ou um padrão quanto à crença, o cidadão tem liberdade suficiente para formar sua própria religião, optando por aquilo que julga ser mais importante. E o indivíduo forma uma religiosidade própria, sem estar preso a instituições. Segundo Fonseca, ''de 1980 para 2000 o número dos sem-religião aumentou seis vezes, enquanto o número de evangélicos aumentou quatro''. Isto não significa que as pessoas estão mais céticas, explica o sociólogo, e sim, que elas optaram por não seguir nenhuma religião institucionalizada.
Outro fator que contribuiu muito para essa liberdade é o aumento no número de religiões. ''A idéia é que você tem um supermercado, a lógica é que cada vez mais ela (a religião) é regida pelas leis de mercado'', compara o sociólogo. Essa grande oferta possibilita que as pessoas tenham uma percepção mais intensa da religiosidade, a partir do momento em que elas são livres para experimentar todas. Fonseca acredita que ''a tendência do século XXI é que as pessoas criem sua própria religião a partir de diversas crenças''. Contudo, ele ressalta que este processo vai demorar mais alguns anos, já que a ''destradicionalização'' não é completa e, no Brasil, 73% da população ainda se diz católica.
Outra interpretação seria a defendida pelo antropólogo Peter Fry. Ele fala sobre as religiões de aflição religiões que se caracterizam por atender as pessoas nas horas de crise. Estas religiões não se sustentariam nas tradições. Segundo o sociólogo, se enquadrariam nesta categoria a Umbanda, o Candomblé e o Pentecostalismo. Fonseca diz que nestas religiões ''mágicas'' a relação estaria baseada na troca. E seguindo essa linha de argumentação, estas crenças funcionariam como uma prestação de serviços, numa relação imediata de urgência.
O sociólogo ressalta que as crenças não permeiam somente as buscas religiosas, mas também as não religiosas. ''A diferença do conhecimento religioso é que ele implica numa crença a priori. Primeiro eu creio, depois eu faço alguma coisa. Nos outros conhecimentos (científico, por exemplo), primeiro você testa, depois você crê'', explica o professor. Mas, somente o ato de crer não sustentaria uma religião. Em algum momento algo tem que acontecer para esta crença se firmar, caso contrário o indivíduo tenderá a abandoná-la.

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