Tecnologia e empreendedorismo - Marcos Mueller Schlemm
Tecnologia e empreendedorismo
Marcos Mueller Schlemm
Recente debate sobre tecnologia e inovação, promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e organizado pelo IEL nacional, em Brasília, trouxe à baila alguns aspectos que nos parecem já crônicos na discussão dos caminhos e descaminhos da produção científica e tecnológica no País. Não faltaram as antigas queixas do descompasso de interesses e perspectivas das universidades e das empresas. Ozires Silva, ex-Embraer, lembrou, com muita propriedade, que o País não tem marca. Parafraseando Ozires, o pequeno país Coréia do Sul é detentor de grandes marcas internacionais, e o grande país Brasil não tem qualquer pequena marca internacionalmente aceita, respeitada e consumida.
Temos assim reunido, numa frase, o balanço de nosso desempenho empreendedor. O auto-engano quanto à nossa criatividade e capacidade de inovação é colocado em xeque. Perante fatos não há argumentos. É fundamental, e urgente, que o País procure eliminar, com objetividade e rapidez, os obstáculos que o impedem de ocupar posição mais relevante no cenário mundial, seja no contexto comercial, seja no de conhecimentos. É preciso desenvolver um senso de urgência entre os meios mais influentes da sociedade, para a necessidade de uma transformação cultural profunda, sob pena de o Brasil virar celeiro mundial de beldades desprovidas de qualquer outro trunfo, a não ser de satisfazer os voyeurs de plantão do grand monde.
Parece-nos que a questão básica na nossa tradição discursiva e da prática de política pública é a insistente ausência da boa informação, para não dizer, erudição inerente ao simpósio permanente de idéias nos meios mais esclarecidos. Discute-se de forma desfocada o papel do Estado num contexto neoliberal. Ou seja, deve o Estado apoiar ou intervir no caso da ciência e da tecnologia? É evidente que sim. Seria irresponsável afirmar o contrário. Nenhum país líder em conhecimento hoje dispensa este mecanismo. Os Estados Unidos, que geralmente são citados como caso clássico de não interferência, são um exemplo muito apropriado de quanto o Estado pode e deve apoiar a germinação de conhecimentos e sua propagação. Seria um tiro no seu próprio pé se não fizesse.
Como foi destacado no encontro da CNI-IEL, todo órgão federal norte-americano é requerido a incluir um mínimo de 2% a 5% de seu orçamento para projetos parceirizados com pequenas empresas para o desenvolvimento de novas tecnologias. No caso da Nasa, com orçamento anual de US$ 14 bilhões, isso representa um montante de US$ 700 milhões que beneficiam e viabilizam centenas de novos empreendimentos. As respostas parecem claras. O que nos falta para olhar as questões, não de um ponto de vista ideológico, mas tendo em vista o bem comum e o efetivo avanço brasileiro, é uma boa dose de pragmatismo na definição das prioridades nacionais.
A possibilidade do empreendedorismo está, sem dúvida, nas mãos do indivíduo que, além da incomensurável motivação e determinação, também reúna os requisitos e conhecimentos adequados ao seu projeto pessoal. É inquestionável, também, a pitada de sorte que todo empreendedor bem-sucedido reconhece ter tido e que soube aproveitar. Igualmente, é inquestionável que as condições estruturais e a postura governamental têm um papel significativo no favorecimento de uma cultura inovadora e empreendedora de uma nação.
Nesse sentido, posturas mal colocadas e defasadas no tempo, tanto no discurso social-estatizante como no liberal-privatizante, só contribuem para o impasse no desenho de políticas públicas bem direcionadas, impedidas pela cacofonia de idéias reinantes e propostas pouco inovadoras. O resultado é o atraso social econômico, com definitivas consequências para as atuais e futuras gerações de brasileiros e brasileiras.
- MARCOS MUELLER SCHLEMM é doutor em Administração e professor universitário em Curitiba





