Tática errada (Editorial)
O líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, José Rainha Júnior, anunciou que na semana que está começando vai ocorrer uma nova onda de ocupações de terra em todo o País. Rainha afirmou que o pacote que o Governo anunciou para combater a violência agrária no Estado do Pará, onde dois líderes do Movimento foram assassinados recentemente, é falho e que a criação de uma Vara Agrária corre o risco de se tornar um aparelho burocrático que vai tornar ainda mais lentas as desapropriações. Assim, persistir nas ocupações, afirma ele, é a única alternativa do Movimento.
É lamentável que o líder do MST não perceba (ou não queira fazê-lo) que a estratégia do movimento perdeu muito terreno junto ao povo, em todo o País. Se no passado houve simpatia pelo movimento, hoje há desconfiança e desaprovação. Pesquisa de opinião divulgada há poucos dias evidencia que, embora 80% dos entrevistados aprovem uma reforma agrária no Brasil, 83% consideram fundamental o direito à propriedade.
Não há contradição. Hoje, poucas pessoas, em sã consciência, são contra a reforma agrária - que, diga-se, ainda não se fez no Brasil. A tese do uso social da terra, estabelecida na Constituição de 88 sem muito aprofundamento, vem ganhando terreno no País. Mas se a reforma é um direito de quem não tem terra, o direito de quem já a tem é inviolável.
E não poderia ser de outra maneira. Os primeiros lutam pelo mesmo direito dos segundos, e a reforma não tira dos últimos esse direito. O objetivo da reforma é a justiça social e o aumento da produção, e não a extinção do direito de propriedade. Para isso, é fundamental o respeito à estrutura jurídica e legal do País. A maioria aprova a reforma agrária, mas, consciente da necessidade do respeito à lei, entende que a violência não é a forma de resolver o problema.
Outra informação tão importante quanto esta é que 59% das pessoas são contra as invasões promovidas pelo MST, e 63% acham que os sem-terra não deveriam invadir propriedades produtivas para forçar o Governo a desapropriá-las em nome da reforma agrária. Além disso, 45% dos pesquisados disseram que os líderes do MST estão mais preocupados com os resultados políticos de suas ações do que com o problema social dos sem-terra.
Esse números mostram que o movimento perdeu credibilidade, além de apoio. A população brasileira está cada vez mais consciente de que sem a lei não existe garantia para ninguém, e que se a lei é ruim deve-se mudá-la e não tornar-se um fora da lei. A maioria sabe e sente que a reforma agrária é importante, mas não pode admitir o uso de meios ilegais para promovê-la.
Causa espanto observar como lideranças que deveriam estar lúcidas diante dos fatos insistem em andar na contra-mão, promovendo atos que produzem mais dificuldades e tensão e não levam a soluções reais. Se o objetivo do MST é conseguir um pedaço de chão para seus liderados, a estratégia deve ser outra. As invasões eram um meio de propaganda do MST e hoje esse marketing está esgotado. O que elas podem produzir hoje é mais violência e morte, que não é - ou não deve ser - o objetivo do MST.





