Tarde gris
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de dezembro de 2001
Maria Luia Victor Barbosa 
Nesta tarde gris, onde chuvas anunciadas na média luz reinante ainda não ousaram liquefazer-se, a leitura dos jornais me parece mais exasperante do que o normal. Algumas matérias traduzem dor e absurdo, como a que acabo de ler sobre um tétrico hospital de Kunduz (Afeganistão), que virou ante-sala da morte. Não há remédios, nem anestésicos, nem sangue para transfusões, nem equipamentos, nem eletricidade, pois o hospital foi saqueado por membros do Taleban em fuga da cidade e o que restou foi pilhado por moradores locais. Uma criança agoniza numa cama suja com o abdome perfurado por estilhaços de bomba, enquanto olha para o teto e morde um cachecol verde. Não há como assisti-la, nem a outros feridos que se misturam com cadáveres.
Horrorizada, tomada por um vago mal-estar que a notícia me transmitiu, passo a outras matérias e detenho-me num cabeçalho: ''PFL vai 'vender' Roseana como nome suprapartidário''. Logo em seguida, em letras menores, leio: ''Programa a mostrará como ex-simpatizante do PC do B, amiga de petistas e de bom trânsito político''. Diante dessa manifestação seria lícito perguntar o que a governadora do Maranhão faz no Partido da Frente Liberal, tido pela esquerda como de direita e reduto máximo das oligarquias brasileiras. Mas a própria Roseana se encarrega de justificar sua filiação: ''Prefiro o PFL, que está mudando de um partido arcaico para um partido transformador''.
Palavras, palavras e nada mais. É claro que não existe nenhum partido transformador no Brasil. Mas é chique ser esquerda, é de bom tom e, melhor ainda, convencionou-se que os da esquerda detêm o monopólio de todas as virtudes, inclusive, as que ressaltam o bom caráter. No máximo a pessoa concede dizer que é de centro. Raramente alguém afirma: sou de direita. Normalmente se diz: sou de centro-direita, ou de centro-esquerda. É mais simpática esta pasteurização ideológica e, se num passado não muito distante, ser chamado de comunista correspondia a algo muito negativo e perigoso, hoje, quando se quer xingar uma pessoa basta dizer-lhe em tom colérico: liberal.
No mais, o que há é a acentuação do oportunismo partidário, a ausência de qualquer ideologia, princípio ou disciplina nestes clubes de interesses, cujo objetivo único é chegar ao poder.
Nenhum partido escapa desta meta pragmática. Assim se pode ver coisas inusitadas, como o Partido dos Trabalhadores (PT) cogitando em compor-se com o Partido Liberal (PL). Se a idéia se consumar, será no mínimo divertido ver nas próximas eleições candidatos do PT subirem em palanques juntamente com o ex-prefeito de Londrina Antonio Belinati, que recentemente ingressou no PL.
Enquanto isso, o atual prefeito petista de Londrina, Nedson Micheleti, promete fazer uma reforma administrativa através de uma série de medidas, que incluem fusões de secretarias e extinção de autarquias. A iniciativa obedece às recomendações do ministro da Fazenda Pedro Malan e visa se adequar à Lei de Responsabilidade Fiscal. Sob outro ângulo, pode-se observar que, sem obras a apresentar (apenas o Lago Igapó 2 foi esvaziado para consertos num pontilhão, mas depois de meses continua ecologicamente incorreto e vazio), o prefeito de Londrina lançou mão, como seus antecessores, da famosa reforma administrativa que sacode os ânimos, movimenta as emoções e distrai as atenções. Ao mesmo tempo, Nedson quer alterar o IPTU taxando os mais ricos e isentando os mais pobres. A medida atingirá provavelmente a classe média e não diverge muito da impostomania que é própria de governos brasileiros de todos os matizes ideológicos.
Nedson, evidenciando sua porção liberal, tentou este ano vender a Sercomtel Celular e foi contra o plebiscito que impediu a venda. Ele voltará a tentar privatizar o órgão no ano que vem. Como se nota, governar é preciso e sem dinheiro não dá. Diante disso não há ideologia que resista.
De jornal em jornal, nesta tarde gris, melhor seria dançar um tango a média luz do que ler estas notícias. Como não sei dançar o tango, escrevo.
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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