Tarde de horror
Kido Guerra
O Brasil, em companhia de países tão diferentes como a Colômbia, Estados Unidos, Nicarágua e Paraguai, entre outros, é figurinha fácil no relatório anual da Anistia Internacional sobre desrespeito aos direitos humanos, divulgado esta semana em Londres. Nada lisonjeiro: o País é denunciado pela frequência com que ocorrem brutalidades policiais e uso excessivo da força. ‘‘Esses atos terminaram muitas vezes com mortes’’, enfatiza o relatório.
A Anistia Internacional afirma que no Brasil a impunidade continua sendo a regra para ‘‘agentes de Estado, paramilitares e outras pessoas que ameaçaram ou hostilizaram dirigentes comunitários, sindicalistas e militantes em luta pela reforma agrária’’. A organização denuncia ainda a ocorrência de maus-tratos e tortura em prisões brasileiras, junto com outros países que, assim como o Brasil, são signatários da Convenção das Nações Unidas contra a Tortura.
É verdade que o Brasil não está sozinho na longa relação da Anistia, que lista nada menos que 144 países onde são diárias as violações dos direitos humanos: da brutalidade policial ao tratamento humilhante e cruel a prisioneiros, como ocorre até em países como a Suíça. É verdade, também, que o Brasil não está incluído na lista de 38 países que promovem oficialmente a pena de morte e executam presos. Mas deveria estar.
A morte de Sandro do Nascimento, o bandido que sequestrou, ameaçou, torturou reféns em plena Zona Sul do Rio de Janeiro na tarde de segunda-feira, e acabou matando uma jovem inocente, vem confirmar as denúncias da Anistia e traz uma constatação macabra para todo o Brasil: a Polícia mata, sim, mesmo quando não tem o direito de fazê-lo.
Não faltou quem, durante aquela tarde de horrores ao vivo pela TV, torcesse pela intervenção da Polícia que, com um tiro certeiro desferido por algum atirador de elite, mataria o bandido e acabaria com aquele terror a que foram submetidas oito mulheres diante das câmeras.
Seria uma morte legítima, perfeitamente justificada pelas circunstâncias. Assim como teria sido legítima a execução do marginal no momento em que ele saiu do ônibus com a refém como escudo.
Mas deu tudo errado. A Polícia demorou a agir, e quando o fez promoveu um festival de absurdos, que culminou com as mortes da refém e do bandido, assassinado no camburão, onde entrara ileso, pelos policiais que o escoltavam.
O trágico e violento desfecho chegou a ofuscar a tarde de horror e a selvageria protagonizadas por Sandro. De algoz, o bandido terminou vítima da barbárie policial, ao ser estrangulado a caminho do hospital. E a professora Geisa acabou assassinada pela incompetência da Polícia do Rio. Um triste espetáculo, assistido pelo mundo inteiro. Inclusive pela Anistia Internacional.
- KIDO GUERRA é jornalista em Brasília

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