No samba popular, no mais das vezes, ela é só amarela. Apenas uma fita cantada por Noel Rosa, Nelson Cavaquinho e Zeca Pagodinho. Mas sempre traz uma carga de emoção imensa. Nas coisas da política a fita ganha mais uma cor – o verde – além de pespontado em ouro com o emblema da República. Pelo registro fotográfico, não existe pessoa que a tenha usado sem um sorriso no rosto. É quase automático, colocou a faixa o sorriso aflora.
E é justamente por essa faixa, pela vontade de aparecer com ela, que as coisas já estão começando a acontecer. Diriam os não versados nessa arte que é prematuro, talvez até burrice começar a pensar nisso desde agora. Mas não é não. O jogo começou nem bem foram fechadas as urnas das eleições municipais. E por quê? Porque as eleições de 2002 marcam o fim de um ciclo, ou o início de um novo.
A verdade é que o ciclo de Fernando Henrique e todas as implicações desse tempo estão para terminar. Isso quer dizer que tudo vai mudar até mesmo se ele conseguir colocar um clone igualzinho a ele para substituí-lo. Por isso a tigrada anda agitada. A campanha eleitoral já começou. E não se faz mais nada sem que seja pesado esse componente.
Mas essa é uma obviedade que todos já repararam, como a moça de biquíni que passa na praia. Difícil é constatar outra realidade que também está aí – concreta, polpuda, quase desabusada como a moça do biquíni. Mas talvez dramática, absurda, impensável. A verdade é que não existem candidatos. Pois é, apesar de todo o burburinho, não existem candidatos para sucessão presidencial. Ninguém que possa ser olhado como um candidato; que desperte ódios ou paixões, que tenha as marcas de um candidato. Aquele homem que possa dizer,com toda a gravidade na entonação: ‘‘Meus amigos, eu sou candidato à Presidência da República.’’
Claro que vários pensam que são candidatos. Mas não são. A direita, a esquerda, qualquer outro tipo de referência que seja adotado para definir o espectro político, estão órfãs de candidatos. E nesse vazio, nesse vácuo é que mora o perigo. Pode-se eleger um poste. Um poste da situação ou da oposição, não importa. Tão-somente um poste.
Tanto de um lado como do outro existe uma idéia fixa: a união. O raciocínio é lógico. Não há político na praça que não pense nisso. Só mesmo uma aliança poderá fazer com que um candidato tenha êxito nessa empreitada. Então nós temos aqueles que estão buscando essa união. Do lado do governo existe gente que sente calafrios com a possibilidade da diáspora por causa das eleições para as presidências do Senado e da Câmara. Consideram que se não for mantida a tríplice aliança o mundo irá desabar. Se o PSDB, o PFL e o PMDB se dispersarem o caos estará instalado.
Na oposição, a mesma coisa. Se a esquerda não se juntar esse processo que está amadurecendo já faz 20 anos não vai alcançar o objetivo. Vão ser precisos mais 100 anos para que haja uma nova oportunidade. Dramático.
Apesar de toda a pregação todo o mundo está botando a cabecinha de fora sem dar a mínima para os que pensam na catástrofe. Do lado do governo existe engarrafamento de candidatos. No PSDB, pelo menos Tasso Jereissatti e José Serra; no PMDB, Pedro Simon (taí um nome interessante); no PFL, Antônio Carlos Magalhães e Marco Maciel além de vários outros que estão, ou fingem estar candidatos.
Já o problema da oposição é diferente. Também existem candidatos é claro, mas ninguém sabe ao certo qual o grau, o teor de oposição que eles trazem nas veias. O mais difícil de decifrar é mesmo Itamar Franco, a esfinge mineira. Mas o que dizer de Ciro Gomes que agora anda de namoricos com o PTB, velho de guerra de tantos serviços prestados ao governo. A todos os governos.
Só resta mesmo Lula. E que ninguém venha com essas histórias de que as prévias no PT são para diminuí-lo. Ao contrário, são para legitimá-lo. Ou alguém acredita que exista outra figura no partido que possa vencer Lula em uma prévia? Rematada bobagem. Só que ele tem um problema. Sai candidato, fazem o maior carnaval, mas o final é lamentável porque previsível – ele perde. Lula não tem estofo, isso já está comprovado, para ser candidato acima ou maior do que o PT. Ele não consegue incorporar outras faixas, que não sejam aquelas conhecidas, para poder abiscoitar o prêmio e a tão sonhada faixa.
Então o resumo de toda essa contradança é o seguinte: não existe mesmo candidato. E, justamente por isso, o risco é sério de que o eleito possa ser o poste. Tanto de oposição como do governo, não importa. Só dependerá das contingências do momento. Mas talvez seja mesmo o poste.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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