A História cria, por vezes, situações embaraçosas para os governantes, como se quisesse fazê-los passar por testes de coerência, a fim de desmascará-los. É o que parece mostrar a coincidência de terem acontecido no mesmo dia a morte do comunista Deng Xiaoping e a decisão do Supremo Tribunal de estender aos funcionários civis da União os reajustes já concedidos aos servidores mititares.
Aparentemente são dois fatos que não têm nada a ver um com o outro, salvo pela repercussão que ambos tiveram na mídia brasileira. Destacou-se, no noticiário da morte do líder chinês, seu êxito com a abertura da economia da China ao mercado internacional. Nossos jornais e emissoras elogiaram o desenvolvimento daquele país e o enriquecimento de seu povo, cantando hinos de louvor ao dogma da economia aberta, acolhido por Xiaoping, que não teve, porém, como corolário, a abertura política, ou seja: a democratização do país. A propósito, a mídia recordou a violência da repressão aos protestos estudantis na praça da Paz Celestial, pelas tropas de Xiaoping.
Já vimos esse filme no regime militar. Ainda assim, não se falou, sobre a economia chinesa, que ela não foi escancarada - como se dá a entender - nem desnacionalizou setores estratégicos de sua produção. O país abriu-se, de fato, aos investimentos externos, mas os controla com regras rigorosas. Além disso, os chineses nunca hesitaram em piratear conquistas tecnológicas ou industriais de outros países, inclusive os Estados Unidos.
Essas não são, no entanto, as diretrizes adotadas pelo Brasil, cuja economia só se aproxima da chinesa pelos baixos salários que paga aos trabalhadores.
E politicamente? Quanto a isso, apesar das diferenças de fachada, maiores são as semelhanças entre a China e o Brasil, porque ambos põem as razões do Estado sobre as de seus concidadãos.
Não é precisamente nisso que o governo brasileiro - do presidente Fernando Henrique - parece pensar quando comenta ou deixa transparecer que a decisão justíssima do Supremo Tribunal Federal, a favor da remoção de diferenças entre civis e militares, vai arrasar o Plano Real? O próprio presidente FHC dá tal impressão, ao insistir em manter - não se sabe com que perigosas consequências para a unidade nacional - as disparidades entre os que trabalham no país, à paisana ou fardados. O governo talvez acredite que a idéia básica do direito - a igualdade de todos perante a Constituição - seja só para inglês ver. Por isso, quando o STF atravessa a barreira do fingimento político-jurídico e aplica o direito, fazendo justiça, os governistas se encrespam, dando a entender que, se pudessem, também poriam os tanques na Praça dos Três Poderes, com os canhões voltados contra o Supremo. Felizmente não podem, e os brasileiros não querem, nem aceitam isso.

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