A Argentina tem no tango uma das suas grandes manifestações culturais, a mais conhecida mundialmente, com certeza. O tango é caracterizado, sobretudo, por expressar algum tipo de tragédia, quase sempre amorosa. Hoje, entretanto, as principais tragédias na Argentina não são amorosas e nenhum novo Gardel irá eternizá-las em alguma página musical.
Uma das atuais tragédias é que a fatura da crise está sendo debitada na conta exclusiva do povo argentino, de um modo geral, e dos trabalhadores governamentais ativos e aposentados, em particular. Entretanto, são de outras espécies, origens e latitudes os predadores que escavaram o imenso buraco no qual aquele país está afundando. Locupletaram-se com o que foi retirado da mina e estão preservados porque fazem as regras e dão as ordens, como agentes do grande capital especulativo e financeiro internacional, tendo como aríetes as elites dominantes do próprio país. Moratória? Calote? Nem pensar. Xô satanás, dizem Domingo Cavallo e os seus cavalariços. No Brasil, vemos todos os dias um filme muito semelhante, porém ainda desprovido de cenas tão dramáticas. Por enquanto. Infelizmente, não tem sido dado destaque significativo para esse aspecto importante da crise argentina.
Outra questão que tem passado apenas pela periferia dos comentários, é a das reais intenções do sistema financeiro internacional em prover um socorro à economia argentina.
A propósito, de qual sistema financeiro estamos falando? Será o do FMI, BID e BIRD? Ou o dos bancos centrais e do banco central da União Européia? Ou o do banco central do império norte-americano? São instituições que controlam parcelas cada vez menos significantes do capital circulante no mundo de hoje. Quem se atreve e tem tutano suficiente para controlar os especuladores, o mercado de narcodólares, os paraísos fiscais?
Qual a melhor jogada e qual a aposta mais interessante nesse jogo: a salvação ou a quebra da Argentina? Para o sistema ‘‘oficial’’, a preocupação maior parece ser a avaliação do possível estrago no caso de tombar essa peça do dominó capitalista. Poderá derrubar o tabuleiro todo?
Já para os golden boys da especulação, a dúvida crucial é bem outra: será mais lucrativo comprar ou vender a Argentina? Para exemplificar, recortemos um pedaço do diálogo que talvez aconteça numa sala repleta de parafernália tecnológica, em algum office desse mundo-cão, onde rola uma animada discussão a respeito do mercado, lucro, dividendos, pontuação da bolsa de valores, enfim, a parametrização dessa nova ordem, pós-moderna.
Um jovem e obscuro analista, aprendiz de mago das finanças internacionais, brilhante mas ainda não muito bem integrado na nova ordem e provavelmente recrutado em algum país também obscuro, ousa perguntar timidamente: ‘‘E o povo argentino, como é que fica?’’
O team leader dos golden boys toma um susto momentâneo mas responde, com firmeza: ‘‘Não iremos esquecer esse insignificante e irrelevante detalhe. Creio que podemos acomodar uma parte dessa gente na Patagônia, outra no fundo do Mar del Plata e o que restar, podemos despachar para as Malvinas. Não haverá problemas.’’
O chato e persistente aprendiz, já postado lá na porta de saída (além de chato e persistente, ele é também esperto), ainda não está satisfeito e dispara uma derradeira pergunta: ‘‘E o Brasil?’’. A resposta do leader foi também fulminante: ‘‘Do Brasil, cuidaremos depois.’’
A cena e o diálogo podem ser fictícios, porém verossímeis, porque a situação, as condições e as circunstâncias em que estão supostos são absurdamente reais.
Não obstante tudo isso, tenho algumas esperanças. A primeira, é que os predadores não consigam completar a sua obra de destruição do vizinho país e de seu povo e que esse processo possa ser detido e revertido. A segunda, é que fiquem ainda ocupados por algum tempo com essa e outras atividades predatórias, mas sem consequências danosas além das já produzidas.
A terceira, é que esse tempo seja suficiente para que nós, povo brasileiro, possamos reverter o nosso processo em marcha, mediante a formulação e a implementação de um novo projeto de país e de nação, uma exclusiva competência de uma nação soberana. O que, evidentemente, não somos agora mas ainda podemos ser.
- LUIZ CARLOS CORREA SOARES é engenheiro em Curitiba e vice-presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Paraná (Senge-PR)

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