Não é novidade no Brasil que a corrupção viceja no âmbito do poder público, porém seu crescimento espantoso já se converteu num mal institucionalizado. Que é de difícil cura, porque entre os seus agentes estão também proeminentes figuras da Justiça, que em última instância é a incumbida de julgar os atos ilícitos, fazer valer a lei em todas as esferas - incluída a gestão pública - e manter-se no elevado plano de guardiã dos princípios da ordem e da moralidade públicas.
Na Operação Hurricane, deflagrada pela Polícia Federal no Rio de Janeiro e envolvendo servidores públicos de elevada categoria, figuram entre os presos dois desembargadores do Tribunal Regional Federal, um juiz do Trabalho, um procurador regional da República, três delegados da Polícia Federal, advogados e empresários. As acusações vinculam-se a jogo ilegal por meio de máquinas caça-níqueis, contrabando, tráfico de influência e receptação, tudo comandado por uma vasta rede profundamente infiltrada nos poderes públicos.
O que impressiona é também o volume dos valores apreendidos em poder desses presos: R$ 10 milhões em moeda, R$ 5 milhões em cheques, o correspondente a R$ 700 mil em dólares, 51 veículos (avaliados em R$ 10 milhões), mais jóias e relógios de alto valor. Louve-se a difícil tarefa da Polícia Federal - porque tendo de pôr as mãos sobre figuras graúdas como as citadas - e o êxito da missão, transcorrida sem os comuns vazamentos, que no mais dos casos colocam por água abaixo as mais eficientes diligências. O operação continua, devendo resultar em mais presos e podendo se estender a São Paulo.
E enquanto isto acontece, poucos avanços houve com as denúncias que resultaram na CPI dos Correios, com os envolvidos no mensalão, com os sanguessugas das ambulâncias superfaturadas e várias outras denúncias. No Paraná, o escândalo do momento é a Operação Trânsito, que já resultou na prisão de quase três dezenas de pessoas, acusadas de causar um rombo próximo dos R$ 20 milhões aos cofres estaduais, na gestão do ex-governador Jaime Lerner.
Entre os presos estão o ex-diretor-geral do Departamento de Trânsito do Paraná, uma ex-diretora financeira do Detran e advogados coordenadores jurídicos do órgão. As investigações, desencadeadas em Curitiba, já vinham desde 2004 e seguiam a pista de uma rede que se alastra por São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Brasília. Os crimes são tramas com a compra de créditos tributários que nunca entraram na receita do Detran.
Os cidadãos vêem esvair-se a esperança de, afinal, assistirem à instauração da moralidade e à queda da criminalidade neste país, quando constatam novos casos de corrupção no âmbito do poder público. Muito pior quando estão envolvidos representantes graduados do Poder Judiciário, e formando quadrilhas. É o crime organizado também em elevados escalões do poder público.

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