É possível a um político ser honesto e operoso, mesmo que o ambiente em que atua conspire contra os que fazem parte dessa espécie, tão rara nos nossos dias e especialmente no Brasil. O senador Jefferson Péres, do PDT do Amazonas, era uma desses políticos. Sua vida pública, desde quando era vereador em Manaus, foi sempre limpa, e é um exemplo que deve servir de incentivo aos jovens políticos que têm a mesma índole. Não se conhece alguém que tenha perdido por ser honesto – porque perdas materiais, se às vezes tangem os bons e descuidados – são coisas irrelevantes. Importa é o ganho que fica para a história e para a consciência de cada um.
  Líder do seu partido no Senado, ele era considerado probo e exigente até pelos adversários políticos. O Congresso e a nação perdem um dos seus mais expressivos políticos, e – diga-se em honra da verdade – também outros perfilaram nessa linha ao longo da história. ‘‘Jefferson foi um parlamentar que sempre pautou suas ações pela defesa intransigente da democracia e da ética e que se guiou pelo que julgava ser do interesse público, mesmo que isso criasse divergência com o governo’’. Estas foram declarações do presidente Lula, em nota pública de ontem.
  O senador morre decepcionado com a política e os sucessivos escândalos de corrupção, conforme a palavra de seus amigos. Por isso, ele havia anunciado que não mais se candidataria, diferente dos que almejam o poder a todo custo e nele querem perpetuar-se. Profundo conhecedor das leis, era integrante da Comissão de Constituição e Justiça e do Conselho de Ética do Senado e muito respeitado entre os pares. Jefferson não tinha inimigos, mas naturalmente semeou contrariedades, como quando recomendou a cassação de seu colega Renan Calheiros, pelas denúncias de corrução.
  São poucas, na história republicana, as oportunidades de se exaltar a carreira de políticos e governantes, nos mais diversos escalões. Assim como Jefferson Peres, houve outros mais que, por se sentirem ‘‘estranhos no ninho’’, saíram desiludidos com a política. Os bons devem mesmo desencantar-se - principalmente no Brasil de hoje - em meio a labirintos de interesses escusos, de corrupção, de baixa operância em benefício do povo e do esquecimento da responsabilidade que têm um homem público guindado ao poder.
  A morte de um parlamentar desse quilate é lamentável, mas o que se lamenta também é ser necessário ressaltar esses casos raros de políticos de qualidade. Porque eles compõem a exceção, quando se esperaria que isto fosse regra geral em se tratanto de homens públicos.

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