Em meados deste século, o Norte do Estado do Paraná era a maior região produtora de café do Planeta. Ocorre que o sucesso do Paraná como exportador de café trazia no seu bojo alguns processos inquietantes para as elites paranaenses.
O principal é que estas áreas tinham conexões econômicas não com o Estado do Paraná, como se pode supor, mas sim com a cafeicultura paulista. Desta forma, estas populações não só adquiriam os bens de consumo necessários em São Paulo, como exportavam o seu café através do Porto de Santos. Daí adviriam duas consequências graves: a evasão de divisas e a quebra da unidade territorial do Estado.
Este último temor é uma constante na história política desta unidade da federação, remontando à criação da província do Paraná (desmembrada precisamente de São Paulo em 1853) e sendo reatualizado com as propostas contemporâneas de criação do Território do Iguaçu (1943) e do Estado do Paranapanema (às custas do desmembramento do Norte do Estado, 1991/92).
Em função da percepção de ambos os perigos, começou a ser gerado um projeto de industrialização do Paraná, que fosse capaz tanto de promover o desenvolvimento econômico, evitando a evasão de divisas, quanto a integração territorial, afastando o perigo de desmembramento de partes do território.
A primeira administração Ney Braga (1961-1966) irá dar forma concreta a esses projetos. De fato, este governador do Partido Democrata Cristão (PDC), anteriomente prefeito de Curitiba, assume o governo colocando estas preocupações como centrais no seu programa de governo.
Para tanto, Ney Braga se empenhou em racionalizar a máquina administrativa a fim de capacitá-la a atuar como propulsora do desenvolvimento econômico e, comprometendo-se com um plano de governo que privilegiava a diversificação econômica, deslanchou um ambicioso programa de industrialização, eletrificação e transportes.
Em 1964, Ney Braga foi um dos primeiros governadores de Estado a se aliar ao golpe militar, valendo-se de suas ligações com o marechal Castello Branco. No início da década de 1980, Ney Braga volta ao governo do Estado, já tendo sido ministro e senador. Como ministro no governo Geisel (1970-1974) ele se empenhou em destruir o prestígio político e o poder econômico do seu principal rival, o também ex-governador Paulo Pimentel. Não conseguiu, como também não conseguiu eleger o seu sucessor, o engenheiro e ex-prefeito de Curitiba Saul Raiz.
O neyismo morria aí, nessa derrota eleitoral, pelo menos enquanto força política. Seu relativo ostracismo só será interrompido com sua adesão ao Partido da Frente Liberal (PFL), sócio do PMDB na Aliança Democrática que permitiu a eleição indireta de Tancredo Neves à Presidência (1985). Tal adesão lhe rende o cargo de presidente da Itaipu Binacional, o último de relevo a ocupar em sua vida.
Em resumo, nenhum balanço sobre a vida e obra de Ney Braga poderá deixar de destacar esses dois aspectos: 1) Sua contribuição à integração territorial e desenvolvimento econômico do Paraná e; 2) Seu apoio à instauração e manutenção da ditadura militar em nosso País.
Independentemente de como se possa avaliar ambos aspectos, parece claro que ele é um dos poucos a aspirar ao título de mais destacado paranaense do século XX – talvez seja mesmo o único.
- DENNISON DE OLIVEIRA é professor de história em universidade de Curitiba, mestre em ciência política e autor do livro ‘‘Curitiba e o Mito da Cidade Modelo’’

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