TALIDOMIDA - Remédio ainda faz vítimas no Brasil
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de abril de 2010
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Ministério da Saúde determinou uma série de restrições para médicos e pacientes
É um crime que o Estado continue essa prática de maneira isenta
Na década de 1950 os cientistas descobriram um remédio capaz de controlar a ansiedade, a tensão, entre outros problemas - a talidomida. Os testes feitos em ratos e camundongos não apresentaram nenhum risco para prescrição humana e assim o remédio foi comercializado em diversos países, sendo indicado inclusive para controlar os enjôos do início da gravidez.
Com o tempo, o alto número de crianças com deformidade chamou a atenção dos médicos, que descobriram ser o remédio o causador. Ratos e camundongos não são afetados pela substância, por isso o erro na indicação para gestantes. Em 1961 a droga foi retirada de circulação em vários países. No Brasil, isso só aconteceu em 1965, mesmo assim o remédio continua sendo usado por portadores de hanseníase, lúpus e alguns tipos de câncer.
Hoje somos o único país no mundo a receitar o medicamento e, por isso, estamos na terceira geração de pessoas atingidas pela talidomida. Nesta entrevista, Conceição Accetturi, infectologista e presidente da Sociedade Brasileira de Profissionais em Pesquisa Clínica (SBPPC), discute como um medicamento com efeitos colaterais tão graves ainda é produzido e receitado no País.
Quais os principais efeitos que a talidomida causa em mulheres grávidas?
A talidomida - Amida Nftálica do Ácido Glutâmico - quando de seu lançamento em 1950, na Alemanha Ocidental, tornou-se largamente utilizada na Europa e no Japão, prescrita para grávidas para alívio de enjôos matinais. Alastrou-se rapidamente por 46 países, transformando-se num dos fármacos mais populares daquela década. Os padrões de exigências de procedimentos e testes naquela época não eram tão rígidos.
No início dos anos 60, pesquisadores clínicos comprovaram a má-formação congênita de bebês relacionada ao fármaco e descobriram que, durante os três primeiros meses de gestação, a droga interfere na formação do feto, provocando a focomelia (aproximação/encurtamento dos membros junto ao tronco, tornando-os semelhantes aos de focas). Devido a esses efeitos teratogênicos provocados nas gestantes, o medicamento foi eliminado do mercado mundial na década seguinte.
Por que há tantos problemas, as mulheres não tomam os devidos cuidados?
Por falta de informação ou ignorância muitas mulheres ingeriam o medicamento sem saber que estavam grávidas; ou não eram orientadas por médicos ou ainda, o que é mais comum, o uso da automedicação, que na maior parte das vezes traz consequências desastrosas para a paciente.
Para outros pacientes há algum risco?
A talidomida ainda é usada no tratamento de hanseníase, lúpus e, mais recentemente, de mieloma múltiplo (um tipo de câncer que se desenvolve na medula óssea, decorrente do crescimento descontrolado de células plasmáticas). O Ministério da Saúde regulamentou a fabricação, dispensação e uso deste fármaco, com uma série de restrições e obrigações por parte dos médicos e pacientes. Não é recomendado em hipótese alguma para mulheres em idade gestacional.
Por que o medicamento continua sendo oferecido no Brasil, uma vez que já foi proibido em outros países?
De acordo com a secretária de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Governo do Estado de São Paulo - Dra. Linamara Rizzo Batistella - é dito que tal procedimento se deve ao fato de ser um remédio barato. Mas é um procedimento que traz desastrosas consequências de deformidade humana. Não entendemos como uma droga com tal potencial teratogênico, capaz de produzir danos ao feto durante a gravidez, como perda da gestação, más-formações ou alterações funcionais, retardo de crescimento ou mental, ainda seja distribuída no território nacional. É mister coibir em definitivo o uso da talidomida, como é fundamental a aplicação da Pesquisa Translacional, monitorando os resultados.
Somos o único país ainda a receitar a talidomida?
Ainda segundo a dra. Linamara Rizzo Bastistella, o Brasil é o único país do mundo que ainda usa a talidomida e, como consequência, já temos a terceira geração de crianças com deformidades. É um crime que o Estado continue essa prática de maneira totalmente isenta.
Existem medicamentos mais seguros e que têm efeito similar?
As pesquisas clínicas não cessam no mundo todo, buscando testar medicamentos com qualidade comprovada e que não tragam efeitos colaterais desastrosos aos pacientes de ambos os sexos. O grande desafio atual é a Pesquisa Translacional. O interesse da SBPPC é transformar os resultados da Pesquisa Clínica em benefícios para a população, pela industrialização de medicamentos mais eficazes que possam ser utilizados pelos pacientes de forma segura e contínua.
O Roacutan (isotretinoina), usado para tratamento de acne, também é altamente perigoso e somente usado em mulheres depois da assinatura de um termo de responsabilidade. Com a talidomida não poderia ser feita a mesma coisa?
Nossa postura é de não sugerir a mesma recomendação a um fármaco proibido no mundo todo.
Qual sua opinião sobre o uso de medicamentos com alto poder teratogênico?
Agente teratogênico é tudo aquilo capaz de produzir dano ao feto durante a gestação humana e seu uso está associado a diversas anomalias, podendo se refletir em perda ou má-formação do embrião/feto, ou ainda em alterações funcionais como: retardo do crescimento ou mental, distúrbios neurocomportamentais, etc. A eliminação deste medicamento do organismo é demasiadamente lenta. Portanto, a gravidez é absolutamente contraindicada durante todo o tratamento com um medicamento que tenha algum potencial teratogênico e por mais dois anos após a sua interrupção.
É imprescindível que homens tomando qualquer medicamento teratogênico usem ''camisinha'' por pelo menos um mês após terem terminado o tratamento. Não podem doar sangue ou esperma enquanto estiverem tomando este medicamento. Portanto, nossa postura é de jamais recomendar o uso de qualquer fármaco com alto poder teratogênico para mulheres na idade fértil ou gestacional.


