Nos últimos dias, foi noticiado que o aquecimento global ameaça seriamente as reservas de água da região do Himalaia, colocando em risco a subsistência de 1,3 bilhão de pessoas, segundo especialistas reunidos na Suécia. Em Pequim, a cidade foi ''maquiada'' e parou para os Jogos Olímpicos, no país das termelétricas.

Não é preciso ir muito longe: Londrina já começa a sofrer com engarrafamentos, enquanto em cidades como São Paulo a qualidade do ar bate na estratosfera do inaceitável, com mais de 100 mil novos motoristas anualmente. Afinal, onde vamos parar?
Para André Trigueiro, jornalista e autor do livro ''Mundo Sustentável - Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em transformação'', a sociedade urge por governos e populações pró-ativas. Sem acreditar em cidades 100% sustentáveis, o professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ vai além: ''ser sustentável não é uma opção, capricho ou alternativa. É uma necessidade''.

Qual o papel da mídia na busca de um mundo sustentável? É possível inserir uma postura pró-ativa no dia-a-dia da população?
Entendo que a postura da mídia num mundo que experimenta uma crise ambiental sem precedentes é denunciar um modelo de desenvolvimento ecologicamente predatório, socialmente perverso e politicamente injusto. É denunciar o que está errado e sinalizar com perspectivas, apontando soluções. Hoje, estamos bem melhores do que estivemos, mas bem aquém do que poderemos estar. Há um processo de amadurecimento do jornalista brasileiro na percepção da ordem de grandeza em que os assuntos ambientais devem estar na mídia.

Recente pesquisa do Ibope em nove regiões metropolitanas do País mostrou: 56% dos entrevistados admitiram que não mudam o comportamento para contribuir com a natureza. Como o senhor vê a postura do brasileiro?
Há muitos assuntos que os brasileiros não sabem que são ambientais e de fato são. Outras pesquisas revelam que o brasileiro entende que meio ambiente é sinônimo de fauna e flora, bichinho e floresta. Quando você entende que nós não estamos fora do meio ambiente, que o meio ambiente começa no meio da gente, que a sustentabilidade nos alcança visceralmente, o discurso ambientalista não é um discurso preservacionista apenas, é um discurso que procura refletir sobre os caminhos da qualidade de vida e principalmente da sobrevivência da nossa espécie no Planeta. Eu diria, em resumo, que ser sustentável não é uma opção, capricho ou alternativa. É uma necessidade.

Mas o senhor considera o cidadão brasileiro muito atrasado em relação às leis sustentáveis?
Acho a população brasileira uma das mais conscientes do mundo em relação aos assuntos ambientais. Agora, prática e discurso devidamente afinados, percebemos que os países do Velho Continente, da União Européia, parecem ser os mais avançados do ponto de vista de uma política pública que tem como premissa a sustentabilidade.

É possível tornar uma cidade poluída como Pequim, que ''parou'' para os Jogos Olímpicos, ambientalmente sustentável?
No caso específico de Pequim, é interessante não fazer nenhum juízo de valor porque naquele exato momento dos Jogos tivemos restrição na circulação de automóveis, no funcionamento de termelétricas e indústrias de cimento. Houve um aperto imposto pelo Governo Central no sentido de atenuar, ao máximo, as emissões de poluentes. Segundo o Banco Mundial, das 20 cidades mais poluídas do mundo, 16 são chinesas e uma delas é Pequim. Quando falamos da gestão sustentável das cidades, estamos falando de um enorme esforço que não envolve somente as empresas, mas a sociedade civil organizada: compreende do síndico do prédio ao presidente do clube. Essa busca é a meta. Acredito que a sustentabilidade vai além do ambiental, alcança algo mais. É uma busca incessante. A ambição deve ser promover de forma incansável, persistente e corajosa a meta de que a sustentabilidade seja a grande inspiração para todas as ações que ocorrem no meio urbano.

Mas temos cidades, como São Paulo, que ''ganham'' 500 novos veículos a cada dia... Como conciliar o capitalismo desenfreado com sustentabilidade?
Não estou muito preocupado em compatibilizar capitalismo com sustentabilidade. Um governo administra conflitos e evidentemente precisa questionar um modelo que sobrecarrega as vias públicas de veículos automotores em detrimento do transporte público de massas. São Paulo é o retrato desse modelo e o resultado é o que se vê. Mais cedo ou mais tarde, será importante adotar medidas que regularizem o uso do espaço público privilegiando o interesse do coletivo. Diante disso, não acho que seja impossível a instalação, em São Paulo, de pedágios urbanos, como já vemos em cidades como Londres, Estocolmo, entre outras cidades européias e asiáticas; elevar o IPVA, ou reduzir o número de habilitações. Singapura é exemplo disso: lá, não basta ter 18 anos. São feitas as contas e chega-se ao número de quantas habilitações são possíveis na cidade.

Diante desses exemplos, cabe ao governo virar o jogo?
Tudo isso compõe um mosaico de opções que o Poder Público se quiser enfrentar como se deve enfrentar, vai evitar um colapso. Vai chegar um momento em que será necessário tomar várias decisões, que vão desagradar vários segmentos, mas de olho no interesse coletivo, que é o que não aconteceu até agora e que justifica, por exemplo, esse caos no trânsito de São Paulo.

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