SUS é Sistema Ultrajante de Saúde
Cláudia Prochet
É absurdamente desrespeitoso com o cidadão a forma como é gerido o sistema público de saúde nesta cidade e imagino, no País. Imagino, porque como uma parcela significativa da sociedade, só agora e aqui deparei com a necessidade de acompanhar um representante da maioria da nossa população em peregrinação por hospitais.
Quantos de nós, que podemos pagar por planos de saúde com ampla cobertura, podem aventar o que é estar à mercê da boa vontade ou do bom humor daqueles que se julgam no direito de escolher e apontar quem viverá e quem morrerá, quem sentirá dor ou quem será tratado com um mínimo de dignidade?
Quantos daqueles que lêem nos jornais as notícias dos financiamentos e repasses de verbas do governo para hospitais públicos e particulares, e que acreditam que seus impostos e CPMFs estão sendo aplicados de forma a atender suas consciências no objetivo caridoso de atender os necessitados, podem supor que os desprotegidos jamais terão acesso ao fruto desses investimentos?
Certamente muito poucos, pois se fazemos parte de uma classe que inclui em seu orçamento a despesa com planos de saúde privados, passamos ao largo daquilo que o governo se obriga a prestar. Somos atendidos com hora marcada, tratamos das mais simples mazelas, e numa emergência, ficamos em quartos confortáveis com médicos e enfermeiros atenciosos, enquanto nossos familiares são informados de todos os procedimentos e têm acesso irrestrito para visitas.
Tudo o que para nós não passa de mera obrigação, do mínimo necessário à observação dos mais básicos direitos humanos, para que, num conjunto, caracterize-se a preservação da sáude como garantido constitucionalmente. Porém, para aquele trabalhador que não pode pagar o ‘‘plano de saúde’’, esse tudo básico é o sonho, é quimera inalcançável.
Para ele, conseguir o atendimento de que necessita já seria a solução. Ver reconhecida sua necessidade e ver um médico, ao invés de ter que desfiar seu rosário de dores para um funcionário administrativo, no mais das vezes sem formação médica, e ao final, já que não está morrendo porque ainda pode falar, ouvir que não se trata de emergência, e por isso ele deve se dirigir a outro lugar, para marcar uma consulta para dali a quatro meses, quando então, provavelmente, já terá morrido ou adquirido sequelas irreversíveis.
Ou seja, não existe um ‘‘Sistema Único de Saúde’’, voltado para atender as necessidades de seres humanos. O que existe é uma doença pública, cujos sintomas são a corrupção na distribuição de verbas, desvios, desmandos e aberrações éticas como as dos médicos que se recusam verbalmente a atender pelo SUS e também a escrever e assinar os motivos da recusa, reagindo como bandidos em face de uma confissão.
Uma epidemia altamente contagiosa, de efeitos devastadores, como o dos hospitais muito eficientes para fazer reformas e comprar equipamentos com dinheiro público e depois simplesmente se descredenciarem dos atendimentos que não dão lucro; como o dos plantonistas dos pronto-socorros, que abandonam os acidentados sem recursos sangrando e sem atendimento por horas a fio.
Essa ‘‘doença’’ só será curada na hora em que todos, pobres e ricos, se unirem para manifestar a indignação generalizada com a falta total de consideração e respeito com a pessoa, na hora em que a sociedade unida disser NÃO aos criminosos disseminadores da falta de piedade, que são, na verdade, corruptores de uma parcela da população que passa a acreditar que o correto é pagar novamente para ter aquilo pelo que já pagou antes, e quem não pode pagar que grite: ‘‘Socorro! Usurparam a Saúde!’’
- CLÁUDIA PROCHET é advogada em Londrina

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