Águas de São Pedro é uma cidadezinha do Interior de São Paulo. São Pedro é uma cidadezinha porque primeiramente é pequena. Depois, também é uma cidadezinha porque é simpática, tranquila, onde a poluição é zero e engarrafamento só mesmo de carroças.
Mas até essa cidade onde geralmente não acontece nada está vivendo a efervecência dos tempos atuais da política. Por causa de pendências pessoais o prefeito Paulo César Ronan Borges pegou o vereador Célio do Nascimento, na Câmara Municipal, arriou-lhe as calças e lhe pregou uma coça de cinto.
A crônica local conta estupefata que o prefeito Borges ainda saiu atrás do vereador Nascimento pelas ruas centrais da cidade desferindo-lhe cintadas nas nádegas. O pobre coitado tentava escapulir segurando as calças que continuavam caídas.
Uma futriqueira de São Pedro conta que a briga já vem de longe, mas atingiu o seu limite nas últimas eleições. O candidato do prefeito perdeu para o candidato apoiado pelo vereador. E além disso foram distribuídos panfletos anônimos que colocavam em dúvida a masculinidade de Paulo Borges e a retidão moral de sua mulher.
Depois da sova dada o prefeito desabafou: ‘‘Me dava um ódio mortal ver a falsa cara de humildade dele. Perdi a cabeça, mas só me arrependo de não ter batido na bunda dele antes’’.
O vereador Célio do Nascimento quis reparar o vexame sofrido e foi a público dizer que foi agredido pelo prefeito a socos e pontapés e não a cintadas no traseiro. Mas várias testemunhas juram que teriam visto o vereador correndo na praça, segurando as calças e empunhando um telefone celular. Os mais detalhistas afirmam que a cueca que Célio do Nascimento estava usando era azul.
Em Brasília ninguém ainda apanhou de cinto, apesar de muita gente sonhar em dar cintadas nos desafetos. Mas o nervosismo é parecido, o que pode levar alguém a perder a cabeça como o prefeito de Águas de São Pedro. O governo joga tudo na possibilidade de o presidente Fernando Henrique disputar uma nova eleição, ficar oito anos no poder e os políticos querem tirar todo o proveito dessa situação, querem conseguir o máximo para aprovar a emenda da reeleição.
Um exemplo disso foi a emenda acolhida pelo relator do projeto, deputado Vic Pires Franco, liberando a possibilidade de se candidatar a qualquer cargo quem estiver no governo. É certo, mas é completamente errado. Juridicamente é correto. Mas politicamente é mais ou menos assim: o governador, por exemplo, pode se candidatar a senador ou a presidente sem sair do seu cargo. Agora, quem é que vai concorrer de igual para igual com um governador que quer ser senador? Não há a menor chance. A máquina administrativa vai funcionar desbragadamente em favor do mais forte - que é o governador. Existem ainda várias hipóteses onde quem está no poder levará sempre a melhor.
Segundo consta esse detalhe foi colocado no projeto para servir sob medida para o governador de Pernambuco, Miguel Arraes, entusiasmado com a vitória de seu partido, o PSB, em várias cidades importantes e, por isso, imagina que pode ser o candidato de união das esquerdas à presidência da República.
Como a ordem do governo é não contrariar ninguém para que não haja marola em cima da reeleição a emenda foi aceita para que o governador possa fazer campanha à presidência sem deixar o posto de governador.
Mas isso também pode ser o bode que se coloca na sala. Depois se retira o bode e todo mundo fica satisfeito e aliviado.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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