Bolsas Louis Vuitton, ternos Giorgio Armani e celulares de última geração. Em tempos em que gigantes como BMW, Audi, Tiffany, Ferragamo, entre outras, contabilizam o melhor momento de negócios, a pergunta que não cala, diante do consumismo: tanto luxo é necessário?

O consultor André D'Angelo tem a resposta na ponta da língua - e na capa de um livro. Autor de ''Precisar não precisa'', D'Angelo faz uma análise do mercado do luxo no Brasil e sustenta que, para o consumidor brasileiro do universo do luxo, não há nenhum constrangimento moral em adquirir produtos e serviços a preços equivalentes ao salário mensal de pessoas mais pobres.

Como o senhor define a relação dos brasileiros com as grandes grifes?
Os brasileiros estão aprendendo a conhecer e a gostar das grandes marcas de luxo mundiais, mas é um processo relativamente demorado. O fato de uma marca pertencer ao mercado de luxo não significa que ela é mundialmente conhecida, e menos ainda que é mundialmente desejada. É necessário primeiro gerar conhecimento sobre ela, para só então despertar o desejo. Este processo, no Brasil, está completando pouco mais de 10 anos. Aquelas marcas que desembarcaram antes no país estão em vantagem.

Há uma explicação para essa contemplação?
Sob a ótica da psicologia do consumidor, certamente. As marcas de luxo transferem ao consumidor o atributo através do qual se tornam conhecidas - bom gosto, refinamento, ousadia, rebeldia. O gosto pelas marcas, mais do que uma característica da sociedade de consumo, é uma característica humana: a de buscar referenciais que garantam ao indivíduo aprovação dos pares e sentimento de gratificação pessoal.

O que envolve o conceito do luxo?
Do ponto de vista do marketing, produtos de luxo são aqueles fabricados por empresas notoriamente reconhecidas como pertencente a este segmento que cobram caro pelos itens que comercializam. De maneira mais ampla, pode-se definir luxo como um privilégio, algo fora do comum.

O que é caro de fato é melhor? Ou estamos diante de estratégias de marketing que criam o conceito do 'descartável'?
Não necessariamente o que é caro é melhor. Na verdade, o preço para o consumidor é um indicador de qualidade do produto, mas nada impede que empresas atribuam preços mais elevados a seus produtos justamente a fim de despertar no consumidor a percepção de que são melhores.

O luxo está mais para satisfação ou ostentação?
A tendência internacional é de um luxo mais voltado à satisfação pessoal, ao prazer individual. No entanto, acredito que no Brasil essa tendência ainda não seja majoritária. Por aqui, existe um leve predomínio do luxo mais voltado ao jogo de aparências do que à gratificação pessoal.

Como mudar essa realidade regida por lançamentos contínuos das grandes marcas?
Não diria que é o caso de mudar. Trata-se de uma realidade do mercado. Ele funciona assim hoje, mas nada impede que os consumidores mudem seu comportamento e forcem as empresas a alterar a lógica atual. O mercado não impõe nada, e é importante que isso fique claro. O consumidor não é vítima de nada, salvo, claro, em casos específicos de propaganda enganosa e coisas do gênero. Ele ingressa de bom grado no jogo de ilusões proposto pelas marcas, porque isso ajuda a dar sentido à sua vida: consumir é uma maneira de justificar o trabalho árduo e, não raro, desprazeroso do dia-a-dia. É uma forma de construir uma identidade pessoal e de relacionar-se com as outras pessoas. O consumo não é pernicioso, como muitas vezes se apregoa. É uma das esferas da vida, e normalmente não é a mais importante. É um canal de relação com o mundo.

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