O mundo inteiro observa – embora muito frequentemente desvie os olhos – a fome nas ruas, da Etiópia ao Leste do Harlem. Entretanto, muitos dos que olham os famintos padecem de uma menos óbvia, mas não menos mortífera, epidemia, a de comer em excesso alimentos equivocados. Cerca de 1,2 bilhão de pessoas em todo o mundo têm excesso de peso e a quinta parte delas é obesa até extremos perigosos para sua saúde.
Comer excessivamente não é apenas um mal típico da opulência. Embora a nação mais rica do mundo (Estados Unidos) também seja a que tem mais habitantes com excesso de peso (55% dos adultos), também o nada rico Oriente Médio e uma Colômbia dominada pela pobreza têm a mesma proporção de pessoas com peso excessivo (41%) que a Europa Ocidental. Inclusive na China, depois das reformas econômicas, a proporção de adultos com excesso de peso passou de 9% para 15%, entre 1989 e 1992. Mais da metade das pessoas com peso excessivo vive no hemisfério Sul.
Antes limitada aos ricos, a superalimentação agora aflige todas as classes sociais. De fato, a crescente oferta de comida ‘‘lixo’’ com alto índice de gorduras e baixo custo, bem como as campanhas publicitárias na televisão, segundo as quais a ‘‘fast food’’ (comida rápida) é imprescindível para ter-se uma vida alegre e despreocupada, resultam irresistíveis para os pobres e os trabalhadores. No mundo subdesenvolvido, os migrantes que fogem da pobreza rural e instalam-se nas cidades adotam estilos de vida sedentários e abandonam as simples mas nutritivas comidas de seus antepassados camponeses (tortilhas e feijões, em boa parte da América Latina, arroz e vegetais na Ásia) para adotar as frituras e guloseimas que vêem nos anúncios da TV.
Os custos sanitários desta enfermidade são enormes e crescentes. O câncer, as doenças coronárias, a apoplexia e o diabetes, todas desencadeadas ou exacerbadas pela obesidade, em conjunto provocam a metade de todas as mortes nos Estados Unidos, a um custo de US$ 118 bilhões por ano de gastos médicos e salários perdidos. E, como a obesidade afeta uma população cada vez mais ampla e próspera, os custos aumentam. Porque, enquanto a fome impera principalmente fora do sistema de atenção à saúde, as vítimas de ataques cardíacos e de outros males produzidos pelo excesso de comida recarregam esse sistema durante décadas com caras medidas para prolongar a vida. Quanto custará cuidar da sa© úde dos atuais jovens do mundo depois que passarem toda uma vida alimentando-se com comida ‘‘lixo’’?
A que deveria ter sido a bênção de um sistema agrícola de baixo custo e altamente produtivo transformou-se em uma pílula de veneno, porque os produtores deste nicho da abundância estão motivados fundamentalmente pelos lucros, frequentemente à custa da saúde pública. As companhias multinacionais de processamento de alimentos, como a Archer Daniels Midland, utilizam uma sofisticada mistura de substâncias aditivas, de sabores quimicamente intensificados, de porções ‘‘extra-grande’’ e de anúncios comerciais previamente testados no mercado para estimular as vendas. O objetivo de sua publicidade é, em especial, atrair as crianças, os consumidores com menor capacidade discriminatória em suas compras.
Nos Estados Unidos, onde os produtores de alimentos são os maiores anunciantes, 90% dos 10 mil anúncios de TV que uma criança vê por ano são de doces, cereais reforçados com açúcar e outras comidas ‘‘lixo’’. E, na busca de novos mercados, os produtores norte-americanos de alimentos exportam para muitos países, com um forte apoio do governo. Quatro em cada cinco lojas McDonald’s abertas a cada dia estão fora dos Estados Unidos, enquanto a atenção da Coca-Cola dirige-se para uma África açoitada pelas secas e que é vista como ‘‘uma terra de oportunidades para nós’’.
Felizmente, há algumas significativas contratendências. O movimento de alimentos orgânicos está, finalmente, entrando no setor alimentício. Com 3% do mercado nos Estados Unidos (e mais na Europa Ocidental), espera-se que os produtos orgânicos alcancem 10% ou mais durante a próxima década. Ao mesmo tempo, a resistência ao fenômeno ‘‘fast food’’ surge em vários setores tradicionais da Europa. Na França, o fazendeiro e ativista José Bove transformou-se em um herói popular no ano passado, graças ao seu teatral assalto a uma loja do McDonald’s em construção. Na Itália está crescendo rapidamente um movimento pela ‘‘slow food’’ (comida lenta). Muitos europeus ocidentais opõem-se à infiltração dos hábitos alimentares norte-americanos e aos alimentos modificados geneticamente, considerados uma expressão de imperialismo cultural.
Os consumidores são os únicos que podem reverter as atuais tendências para enfrentar as políticas governamentais norte-americanas, que descuidam da educação em matéria de nutrição e promovem a difusão de ‘‘fast foods’’ no exterior em nome da expansão das exportações. Assim como acontece com o cigarro, essas políticas refletem o sombrio espectro das crescentes taxas de doenças e mortes.
- MARK SOMMER é escritor e colunista, e dirige o Mainstream Media Project, uma iniciativa com base nos Estados Unidos para levar novas vozes aos meios de comunicação (IPS)

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