Depois de passar 35 dias com as operações paradas, o site Wikileaks voltará a receber e também a divulgar informações confidenciais a partir de amanhã. Foi o que prometeu o porta-voz do portal, o jornalista Kristinn Hrafnsson, durante o primeiro Encontro Mundial de Blogueiros realizado em Foz do Iguaçu no fim de outubro. Ele também falou sobre os dois motivos que provocaram esta paralisação nas ações do Wikileaks: pressão das grandes corporações financeiras (que bloquearam contas e doações recebidas pelo grupo, mesmo sem decisão judicial) e também novas melhorias no sistema informatizado do site que garantam segurança aos voluntários que queiram encaminhar denúncias documentadas envolvendo autoridades de qualquer país.
Nascido na Islândia, Hrafnsson é o segundo nome na hierarquia do portal mais polêmico do mundo (www.wikileaks.org), devido às denúncias feitas por eles envolvendo governos de diversos países, em especial Estados Unidos e Inglaterra, principalmente ligados a escândalos diplomáticos, manipulação de informações oficiais e crimes de guerra. Outro motivo que atrai a atenção da mídia mundial para o grupo envolve o criador do site, o australiano Julian Assange, atualmente respondendo a dezenas de processos envolvendo as divulgações via internet e também sobre suposto abuso sexual ocorrido na Suécia em 2010.
''A mídia tem mais interesse na história de Julian que nos crimes de guerra divulgados por nós. Mas acho que não deveríamos ficar surpresos, já que vivemos num mundo onde as pessoas estão mais interessadas em celebridades que em notícias importantes'', disse Kristinn aos quase 700 participantes do encontro.
Com mais de 20 anos de profissão, o jornalista conheceu Assange em 2009 e nunca mais deixou de colaborar com o Wikileaks, em funcionamento desde 2006. ''Era repórter da TV estatal da Islândia quando soubemos que o site havia divulgado documentos de um grande banco local. Foi a primeira vez na história do nosso país que a televisão pública foi proibida, por meio de liminar, de divulgar uma notícia'', disse Hrafnsson à Folha e a um grupo de jornalistas em Foz.
A ação que mais chamou a atenção internacional foi a liberação virtual de 251 mil documentos secretos envolvendo diplomatas de dezenas de países, incluindo 3 mil páginas sobre o Brasil. A divulgação deste material foi no dia 28 de novembro do ano passado, em parceria com cinco grandes jornais: Le Monde, Der Spiegel, The Guardian, El País e The New York Times.
Por isso a escolha do dia de amanhã, exatamente um ano depois das publicações que geraram uma crise diplomática internacional, como data estratégica para o retorno das atividades. ''No dia 28 de novembro, vamos abrir nossos sistemas para que as pessoas possam submeter informações e denúncias com mais segurança. Prometemos isso'', afirmou Kristinn.
A seguir, trechos da conversa do porta-voz do Wikileaks com os jornalistas em Foz do Iguaçu. A reportagem contou com a ajuda da repórter Vanessa Freixo para traduzir a entrevista. O encontro, que recebeu blogueiros e profissionais de comunicação de 23 países, foi realizado no Parque Tecnológico da Itaipu (PTI).
O Wikileaks está quebrado?
Sempre digo que as notícias da nossa suposta morte são exageradas. O site ainda funciona, muitos documentos estão disponíveis lá e análises das denúncias que já possuímos continuam. O problema é que as doações que mantêm as atividades foram bloqueadas por meio das grandes empresas financeiras, principalmente as que controlam cartões de crédito. Tudo isso sem qualquer decisão judicial. Pedimos recurso junto à Comissão Europeia e apelos no Reino Unido, Dinamarca, Austrália e Estados Unidos. Sabemos que isto vai ser uma batalha custosa e por isso decidimos parar por um tempo.
E quando retornam?
Foi o que disse na conferência. No dia 28 de novembro vamos abrir nossos sistemas para que as pessoas possam submeter informações e enviar denúncias com mais segurança para a nossa equipe de colaboradores e analistas. Prometemos isso. Vai ser uma versão melhor, uma espécie de 2.0 em relação ao projeto original. Um sistema que possa dar estrutura à nossa missão principal: expor a corrupção e aumentar a transparência neste mundo.
Qual é a situação financeira do Wikileaks?
Os bloqueios de empresas como a Visa, Mastercard, Western Union, Pay Pal e Bank of America impediram a entrada de mais de US$ 1,5 milhão para as contas do grupo nos últimos dez meses. Como disse antes, para continuarmos trabalhando no ano que vem, precisamos de pelo menos US$ 3,2 milhões.
Ainda assim vocês mantêm o objetivo principal que é a transparência. Vale a pena enfrentar grandes potências?
Lutar contra a corrupção e aumentar a transparência é basicamente o desejo de todo jornalista. Nós temos visto tanto segredo no mundo, e eles estão aumentando especialmente nos últimos dez anos, depois do 11 de Setembro, tanto nos governos quanto nas corporações. Então, o que nós queremos é abrir e lutar contra essa parede de segredos, com a crença de que aumentar a transparência será uma boa ferramenta para tornar nossas sociedades mais saudáveis, é uma ideia muito democrática.
E o trabalho conjunto com os jornais impressos?
Não dá para agir sozinho quando se trata de denúncias graves envolvendo governos como o dos Estados Unidos. Mas vamos selecionar melhor as parcerias a partir de agora. Os comunicadores não estão acostumados a trabalhar com o coletivo. Precisamos pensar que as mídias devem colaborar para o bem da sociedade. Eles precisam lembrar que muitas mídias não estão competindo em território comum, em mercados comuns e nem mesmo em uma única língua. É importante pensar no alcance da informação e não apenas na concorrência.

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