Sujou, limpou!
Ricardo Prochet
Uma das principais lições do derramamento do óleo do navio Exxon Valdez era que a potencialidade da prevenção e a resposta rápida a qualquer acidente ecológico ocorrido nas proximidades do Porto de Valdez em Príncipe William Som (Alaska) eram até então, completamente inadequadas.
Há mais de dez anos, quase 11 milhões de galões do óleo espalharam-se lentamente sobre a água de mares calmos e lisos do Alaska durante três dias. O maior acidente ecológico observado até então aconteceu por conta da falta de profissionalismo de um comandante chamado Joseph Hazelwood. Sob efeito de álcool no momento do trágico acidente, ele tinha sob sua responsabilidade o maior navio de transporte de petróleo até então construído.
Naquele lamentável dia, quase 10 mil milhas quadradas foram seriamente afetadas pelo derramamento, incluindo uma floresta nacional, quatro refúgios nacionais de animais selvagens, três parques nacionais, cinco parques estaduais, quatro áreas críticas de habitats marinhos controlados pelo Estado e toda uma reserva biológica reconhecida mundialmente como santuário ecológico.
Os animais selvagens que naquela região variam dos ‘‘seabirds’’ e as lontras do mar, às baleias e às águias carecas foram todos cobertos pelo óleo cru e mortos por intoxicação logo depois. Também, as comunidades de pescadores perderam milhões de dólares de rendimento potencial dos salmões destruídos, bem como do bacalhau preto, que são animais de rara sensibilidade ao meio – ambiente poluído.
Na ocasião, ainda trabalhando na Esso Brasileira de Petróleo, lembro-me das imediatas providências tomadas pela empresa, que por possuir uma declaração de valores onde constava a ação a ser seguida no caso de derramamento de óleo com danos ao meio ambiente, não teve maiores problemas em mobilizar uma enorme quantidade de cientistas do mundo inteiro no esforço de iniciar o processo de retorno às condições ecológicas anteriores ao acidente. Comenta-se que a empresa gastou seu lucro mundial daquele ano na operação. Comenta-se ainda que a companhia montou uma operação de tal magnitude que culminou com a contratação de pessoas que se dispuseram a limpar cada pássaro individualmente à mão.
Até hoje, decorridos mais de dez anos, equipes especialmente contratadas pela empresa medem constantemente os níveis de poluição e declararam recentemente que as condições ambientais já haviam finalmente se restabelecido, mas que lamentavelmente uma espécie de peixe existente somente naquela região estava praticamente extinto, sendo pequenas as chances de sua manutenção na natureza.
Enquanto isso, aqui no Brasil, a nossa Petrobras, de quem constantemente temos notícias de oleodutos com vazamentos que danificam o meio ambiente – já é o segundo no corrente ano – sem que no entanto, vejamos qualquer punição que passe da pena máxima de R$ 50 milhões cobrados pelo Ibama, que por ser igualmente estatal deixa-me com a impressão de que se tira o dinheiro do bolso direito passando-o para o esquerdo, sem que nada de prático aconteça com o meio ambiente severamente agredido. Não se esqueçam que os 800 quilômetros do Rio Iguaçu, que corta o Estado de Paraná, abrigam populações ribeirinhas que dependem do rio para sua sobrevivência, bem como as Cataratas, que são abrigadas por sua foz, consideradas uma das maravilhas do mundo moderno, e patrimônio intocável da humanidade.
Preventivamente, a Esso, além de comprometer integralmente seu lucro invocando o valor ‘‘Sujou, limpou!’’, divulgou uma semana após o acidente uma política mundial de álcool e drogas, vigente até hoje e que garante dentre outras coisas a manutenção do emprego e o total custeio do tratamento de seus funcionários que se declararem viciados em qualquer droga.
Sugiro que a sociedade brasileira, a quem sempre cabe tudo pagar, mobilize-se em uma ação conjunta e cobre da Petrobras e de seus novos acionistas uma postura ecologicamente correta que leve a companhia a imediatamente providenciar a limpeza daquilo que sujou, doa ao bolso de quem doer.
- RICARDO PROCHET é professor universitário e consultor de Empresas em Londrina
e-mail:[email protected]
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