Sujeira sob o tapete - Arlete Salvador
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sexta-feira, 11 de dezembro de 1998
Arlete Salvador 
Até outro dia, o nosso vizinho Chile nos causava inveja. Muito menor do que o Brasil em termos territoriais, era apontado como exemplo de economia emergente que deu certo. Passou quase incólume pela crise asiática do ano passado e pela quebra da Rússia. Moeda estável, país sem sobressaltos, com lindos lagos e previdência privada considerada modelo para o Brasil. Enfim, parecia melhor que nós em tudo. E tão pequenininho - para nossos padrões, claro.
O episódio Augusto Pinochet, o ex-presidente ditador que pode ser julgado pelos crimes cometidos enquanto esteve no poder, mostrou que o Chile é um sepulcro caiado, para usar uma imagem bíblica. Havia no país muita sujeira embaixo do tapete, esperando a hora de ressurgir com força redobrada. E ela voltou agora, na forma da comoção e da divisão que se viu entre os chilenos em relação a Pinochet.
O Chile pode ter conseguido estabilizar a moeda, mas deixou abertas as feridas da ditadura. Elas continuaram a doer na alma dos chilenos como brasas. Estavam adormecidas. Bastou um vento mais forte para reavivá-las. A opção chilena de transição de um sistema ditatorial para a democracia foi a de fazer de conta que a tortura, o assassinato e a perseguição política não haviam acontecido.
Procurou-se apagar o passado como se nunca tivesse acontecido. A escolha, vê-se agora, foi a pior possível. O país continua dividido e martirizado. A verdade é que ninguém esqueceu o passado. Argentina e Brasil fizeram opções diferentes. Os argentinos foram mais duros na punição aos generais que engendraram e mantiveram a ditadura, até porque os comandantes de lá chegaram ao absurdo de uma guerra contra a Inglaterra.
De uma forma ou de outra, foram punidos pelos crimes que cometeram na ditadura. O Brasil fez a opção moderada. Não puniu os militares que ordenaram a tortura e a morte de presos políticos, mas não esqueceu os episódios.
Nos últimos anos, cemitérios foram abertos, desaparecidos foram finalmente dados como mortos. Cadáveres da ditadura adquiriram nome e sobrenome. O Estado reconheceu sua culpa e responsabilidade nas mortes e está pagando indenizações às vítimas da tortura. Talvez não tenha sido o ideal, mas também não se pode dizer que o país fechou os olhos para o seu passado. É preciso também dar crédito ao governo do presidente Fernando Henrique Cardoso por ter contribuído enormemente para o acerto de contas com o passado.
Pode-se argumentar que, no caso chileno, não havia alternativa política para sair da ditadura. Em troca da liberdade, era preciso engolir o general Pinochet e seus comandados, aturá-los no governo e, de certa maneira, venerá-los. Foi demais para um país que enfrentou a ditadura mais violenta da América Latina (se é que existem ditaduras menos violentas). Não se esquece a perda de alguém amado desse jeito, olhando todos os dias para o rosto de seu carrasco.
Seja qual for o destino reservado ao ex-presidente Pinochet, fica evidente que o Chile não encontrou a paz na estabilidade econômica e na fachada de país emergente de sucesso. Certos fantasmas nunca se vão. É sempre melhor enfrentá-los. Nosso vizinho está descobrindo isso a duras penas.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo


