Suicídio: a face oculta da violência
Francisca Vergínio Soares
Dia 10 de setembro é o dia mundial de combate e prevenção ao suicídio. A importância da data se deve à estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que nos últimos 45 anos a taxa de suicídio cresceu 60% no mundo. A cada ano, 1 milhão de pessoas tiram a própria vida, o que corresponde a uma taxa de mortalidade de 16 por 100 mil habitantes, o mesmo que uma morte a cada 40 segundos, número que pode dobrar até 2020. Em Londrina, por exemplo, segundo o IML, 32 pessoas, só este ano, já cometeram este ato.
A violência está expressa na sociedade e nem por isso se deixa de falar dela todos os dias. Aliás, basta ver os inúmeros programas nas televisões que exploram, muitas vezes, de maneira grotesca e banal o assunto.
Pergunta-se: por que outra violência, no caso o suicídio, um ato individual contra a própria vida não é discutido? Seria um tabu falar sobre o assunto? Mas por que não é tabu falar sobre a violência social que também acomete o indivíduo todos os dias? Se a violência é um caso de saúde pública, por que não tratar o suicídio da mesma forma? Por que se oculta essa face da violência?
O sociólogo Émile Durkheim foi pioneiro em tratar do tema, sua obra clássica de 1897 explorou o tema numa época marcada por conflitos e mudanças sociais. Em que pese o suicídio exigir estudo que envolva a psicologia e a psiquiatria, Durkheim deixou bem claro em sua análise que o assunto seria tratado por ele como um fato sociológico externo ao indivíduo. O que o autor queria dizer em sua análise é que o indivíduo não teria culpa por cometer tal ato, mas a culpa seria da sociedade por não conseguir criar laços que o ligue a ela.
Três são os tipos de suicídio para ele, o egoísta, onde o ego individual se afirma demasiadamente face ao ego social e há uma individualização exacerbada. As relações entre os indivíduos e a sociedade se afrouxam fazendo com que o indivíduo não veja mais sentido na vida; o suicídio altruísta é praticado por uma causa social, é aquele em que o ego não lhe pertence, confunde-se com outra coisa que se situa fora de si mesmo, ou, em um dos grupos a que o indivíduo pertence.
Finalmente, o suicídio anômico, este é praticado em uma situação de anomia social devido à ausência de regras sociais que provoca, assim, uma anormalidade social. O anômico, segundo Durkheim, ocorre em situações de crise econômica, pode-se dizer que o sentido da vida está ligado ao não acesso ao consumo de bens materiais.
Considero relevante trazer, neste momento, a visão deste autor sobre um tema ainda visto como tabu, como um assunto proibido, talvez pelo temor de que discuti-lo estará se incentivando sua prática. Mas, se fosse esse o motivo, não se deveria também proibir o modo como a mídia de um modo geral, tem banalizado a questão da violência em suas abordagens? Imagens são mostradas todos os dias de indivíduos praticando atos cruéis contra outras pessoas das formas mais diversas. Isso não tem incentivado ou influenciado a prática da violência, já que quase sempre, é semelhante o modus operandi?
Não obstante, o caráter de objetividade dado ao tema suicídio, Durkheim chamou a atenção ao fato da responsabilidade social sobre o assunto. Quando ele atribui a responsabilidade não ao indivíduo, mas à sociedade sobre o porquê das pessoas tirarem a própria vida, não vejo incoerência nisto, senão vejamos: o que é e quem é a sociedade? A sociedade sou eu, é você que está lendo este artigo, são as famílias, as igrejas, empresas, escolas e outras instituições que a compõem. Logo, nós sociedade, seja por omissão ou outro motivo, somos todos responsáveis pelo fenômeno do suicídio e da violência.
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