Súditos de el-rei Camões - Aldo Rebelo
Súditos de el-rei Camões
Aldo Rebelo
As comemorações dos quinhentos anos do Descobrimento do Brasil ensejam duas questões que muito valorizam a importância de um dos mais preciosos e belos legados da presença portuguesa, o idioma. A primeira questão é a do emprego, no começo da colonização, de uma língua nativa, o nheengatu, que levou mestre Gilberto Freyre a sublinhar o caso único de um povo invasor que adotou para o gasto ou o uso corrente a fala do povo conquistado... A segunda é a adoção altiva que nós os brasileiros fizemos da língua portuguesa, abraçando-a como um bem cultural soberano cuja integridade nenhum movimento nativista ousou contestar.
O documento fundador da história brasileira, a carta de Pero Vaz de Caminha a Dom Manuel, comunicando a posse do Brasil, já chamava atenção para a necessidade da uniformização do idioma: Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos..., escreveu o cronista. Ao contrário do que muitos pensam ainda hoje, os dois milhões de índios não falavam, como os 350 mil remanescentes não falam, apenas o tupi, e sim numerosas línguas e dialetos. O tupi era o tronco idiomático dos grupos indígenas com quem os portugueses tiveram os primeiros contatos. O missionário jesuíta José de Anchieta, que chegou em 1554, tanto sabia disso que sua famosa obra leva o título de A Arte de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil.
Os missionários aplicaram as regras do latim e do português para dominar o tupi. Codificaram o nheengatu, ou a arte de bem falar, também conhecida como língua geral. Não era exatamente o tupi falado pelos índios, mas um portupi gramaticado pela lógica latina, e recheado de palavras portuguesas adaptadas ou neologismos tupínicos criados pelos jesuítas para designar abstrações que os índios ignoravam, como pecado, anjo, paraíso ou Nossa Senhora. Chegou a ser o idioma mais falado no Brasil no século XVIII, utilizado como meio de comunicação entre tupis, portugueses, mamelucos, caboclos e índios que usavam outros idiomas. Por incrível que pareça, pois, muitos indígenas vieram a aprender a falar o tupi com os civilizados, diz o antropólogo Julio Cezar Melatti no livro Índios do Brasil.
Cumprido seu papel de intermediação, o nheengatu declinou e, já no final do século XVIII, depois de o Marquês de Pombal proibir, em 3 de maio de 1757, o ensino de outras línguas, o português se generalizou integralmente no Brasil. Observadas pequenas diferenças, sobretudo se considerada a epopéia da transposição de um idioma em condições tão complexas, entre realidades sociais e culturais tão diversas como o eram a Corte européia e a selva tropical, consolidou-se como a língua da unidade nacional num país-continente.
A conclusão, pois, a que não podemos fugir, é a de que se temos o privilégio, apesar da vastidão do nosso território e da variedade de fatores que concorrem para a diversificação de nossos falares, de nos entendermos facilmente de extremo a extremo do Brasil, devêmo-lo a essa língua portuguesa, que foi, desde a fase colonial, uma das forças decisivas da unidade do país, nota o jornalista Barbosa Lima Sobrinho em A Língua Portuguesa e a Unidade do Brasil.
O idioma do Brasil é idêntico ao de Portugal, numa demonstração de que foi bem aceito no Novo Mundo. O português do Brasil é o português de Portugal quinhentista, não enriquecido pelo Renascimento italiano que reformou a língua e a literatura portuguesas. É o idioma expansivo, elegante e musical, em que Camões escreveu Os Lusíadas e declamou, tal como falamos hoje, com as vogais escandidas em vez de degustadas, alguns dos versos perfeitos da literatura universal. Camões, como outros grandes clássicos portugueses, usava o gerúndio: Um dia que pregando ao povo estava, Fingiram entre a gente um arroído... (Lusíadas, X, 117). Note-se que o uso do gerúndio é dado por alguns como brasileirismo, assim como a liberdade com a colocação dos pronomes (me aguarde..., eu vi ele..., mas há especialistas que identificam tais práticas no português medieval que veio na bagagem dos colonizadores. Muitos dos nossos brasileirismos, e muito da nossa gramática, não passam de arcaísmos preservados na América, atesta João Ribeiro em A Língua Nacional.
Nem por ocasião da Independência, alentada por movimentos nativistas radicais, os patriotas desdenharam o idioma. Muitos deputados à Assembléia Constituinte de 1823 trocaram os nomes portugueses pelos indígenas, mas nenhum ousou propor que o português fosse substituído por outro idioma. Assim como nunca foram levadas a sério as sugestões jacobinas de uma língua brasileira ou de um dialeto português no Brasil.
Conte-se, a propósito desse jacobinismo, uma anedota forjada na cátedra de português do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Diz-se que, aborrecido com um aluno que fazia a defesa inflamada do tal idioma, o professor José Oiticica o desafiou: Diga-me, então, o Pai-nosso em língua brasileira.
É com base na história, na importância geopolítica, na beleza do nosso idioma que lançamos, no Brasil, o Movimento Nacional de Defesa da Língua Portuguesa. O Movimento nasce com um projeto de lei, apresentado à Câmara dos Deputados, para obrigar o Poder Público a proteger e incentivar o ensino e a aprendizagem da língua. Será de uso obrigatório no trabalho, nas relações jurídicas, na expressão oral, escrita, audiovisual e eletrônica de todos os documentos e eventos públicos, bem como deverão ser escritos ou falados em português os meios de comunicação, a publicidade, as embalagens e toda e qualquer comunicação dentro do território nacional, com as ressalvas e exceções cabíveis.
As palavras estrangeiras, quando necessárias e não tiverem correspondentes em português, deverão ser aportuguesadas, de acordo com as regras clássicas que, por exemplo, transformaram black-out em blecaute.
O português, no Brasil, está sendo conspurcado por hieróglifos de difícil decifração, que nos turvam a vista e enrolam a língua, a exemplo de monstruosidades léxicas como breakfast, carrying, e-mail, gefiltefish, girl, happy-end, homestead, hot, kaddisch, network, new-look, newmarket, off-line, out-board, out-caste, out-line, output, outrigger, outsider, parkerizar, pointer, scanner, schebat, schedule, schroeckingerita, schwabacher, scraper, scratchman, snekar, snik, snipe, spool, sprue, squeeze, starter, steeple-chase, steward, styraloy, svetlozarita, tsaréviche, uppercut. Toda essa algaravia consta de nosso vocabulário ortográfico oficial.
É nosso propósito estimular, a partir do Congresso Nacional, as iniciativas conjuntas da comunidade lusófona para proteger o português como uma das mais belas línguas de cultura do mundo. Como disse o jornalista Barbosa Lima Sobrinho, é esta língua que nos faz, na república das palavras, súditos de el-rei Camões.
ALDO REBELO é jornalista e deputado federal pelo Partido Comunista do Brasil





