Por que algumas pessoas se saem tão bem quando montam um negócio e outras não? Por que alguns funcionários chegam a cargos de chefia e outros parecem não demonstrar talento para comandar? Segundo o administrador de empresas Luiz Fernando Garcia, especialista em psicodinâmica aplicada aos negócios, o subconsciente tem forte influência em nossas escolhas e êxito profissional.

Com mais de 20 mil horas de atendimento a empresas, ele é autor do livro O Inconsciente Na Sua Vida Profissional. Em entrevista à FOLHA, explica como as experiências influenciam no presente.

As decisões de negócio são tomadas com o consciente. Nosso subconsciente influencia de que maneira?
As experiências emocionais e de trabalho caminham integradas e são indissociáveis. Alguns elementos podem atrapalhar pessoas em cargos de liderança sem que elas se dêem conta. São influências que podem moldar o comportamento de um líder, tornando-o severo demais ou que realize um auto-boicote dentro da empresa sem se dar conta.

Filhos de pais empreendedores geralmente são empreendedores também?
Em primeiro lugar é importante diferenciarmos a personalidade empreendedora da conduta empreendedora. Personalidade empreendedora é um jeito de ser e refere-se de 3,5% a 5 % da população mundial. Existem fatores genéticos, psicológicos e sociais que levam ao comportamento empreendedor. Os genéticos determinam 50% da capacidade empreendedora. Os outros 50% vêm do psicológico, formado na primeira (zero a dois anos) e segunda (dois a sete anos) infâncias, período em que a pessoa foi estimulada em núcleos de iniciativa, risco e visão. Há também a influência da inclusão social, das experiências vividas e afetos colocados nos indivíduos no processo de socialização e desenvolvimento até os 22 anos.

Como os pais podem ajudar a formar filhos preparados para os negócios?
Nem sempre filhos de empreendedores desenvolvem as mesmas características e os pais podem ajudar sabendo oferecer estímulos de iniciativa, risco e visão. Ensinar, ficar junto com o filho e mostrar como se faz é melhor do que fazer por ele, por exemplo. A mãe determina principalmente o núcleo de auto-estima e o pai a estratégia.

Quais os traumas que geralmente influenciam negativamente no trabalho e como isso acontece?
Um abuso sexual na infância pode tornar uma mulher executiva durona, sem flexibilidade. O fato de uma criança ser cobrada por responsabilidades, como cuidar dos irmãos, pode torná-la um adulto com baixa auto-estima, que se acha vitimizado dentro da empresa.

Então, as experiências de infância também podem influenciar positivamente...
Com certeza. A exigência precoce pode gerar uma disfunção na área das relações afetivas, porém gera comprometimento nos negócios. Mas se esses estímulos de criação forem equilibrados, o indivíduo poderá trazer nele maiores condições afetivas e um baixo comprometimento com os negócios. Mas precisamos lembrar que nada é absoluto.

Que influência os traumas têm na escolha profissional?
Os traumas estão no inconsciente e podem influenciar qualquer pessoa. Abordamos mais os casos de chefia ou de empresários, porque lidamos com a alteração de comportamento e para que os resultados sejam alcançados nos negócios é preciso mudar o comportamento do líder.

Como as pessoas e as empresas podem perceber esses traumas e aprender a lidar com eles?
Isso é justamente o que tentamos mostrar no processo dos Grupos Dirigidos (GDs). Os participantes passam por um processo de autoconhecimento, conhecem as teorias da psicanálise e percebem como é possível resolver conflitos ou, ao menos, minimizá-los.

Se tivéssemos experiências de infância semelhantes, todos poderíamos ser bons nos negócios ou algumas pessoas simplesmente não têm talento para comandar?
Cerca de 50% da identidade da pessoa vem do biológico e os outros 50% do meio. A variável tanto biológica quanto do meio provoca diferentes formas de comportamento. Porém, como o indivíduo pensa ou sente, em determinadas situações, podem ser similares. Portanto é possível identificar perfis de comportamento por meio de instrumentos de diferentes abordagens na inclinação de funções que resultam em melhores habilidades e competências.

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