Sucesso a ser imitado - Editorial
Sucesso a ser imitado
O Ministério da Saúde pretende vacinar 16 milhões de crianças contra a paralisia infantil hoje em todo o País. É a sequência de um dos mais importantes e bem-sucedidos programas de prevenção já realizado no Brasil, que completou este mês 10 anos sem nenhum caso da doença. Este sucesso, além do imenso significado humano, garantindo à infância brasileira a segurança diante de uma moléstia que era, aqui como no mundo, um verdadeiro flagelo, oferece também uma outra conclusão: quando existe vontade de se fazer alguma coisa, ela pode se concretizar. O que se fez no Brasil, a partir da descoberta das vacinas contra a pólio, principalmente a Sabin, de mais simples aplicação, é mais do que um exemplo. Evidencia claramente que é possível enfrentar qualquer obstáculo, desde que exista vontade e disposição.
O Brasil, com o sucesso na campanha de combate à poliomielite, atingiu um verdadeiro e importante marco. É altamente satisfatório saber que há 10 anos não ocorre nenhum caso da doença entre nós. É igualmente alentador observar que este sucesso não reduziu a disposição das autoridades, pois sabem que o fato de não ter acontecido nenhuma ocorrência nos últimos 10 anos não é garantia total. A doença pode voltar a se registrar entre nós, até porque apesar de todo o esforço mundial, ainda ocorrem casos em outros países. Logo, é possível que, de algum modo, ela volte, a não ser que prossigam, de modo total, os procedimentos que vêm sendo feitos. Esta, como tantas outras lutas pela saúde, não pode ser suspensa, nem o êxito obtido até agora deve servir para que ocorra uma redução ou descuido na continuação das medidas preventivas.
O sucesso obtido em relação ao combate à pólio traz, porém, outra série de raciocínios. Existem muitas doenças que também poderiam ter sido evitadas, inclusive pela existência de vacinas, mas que ainda atingem crianças e até adultos no Brasil. Adicionalmente, todo o quadro de atendimento à saúde no País apresenta uma série de falhas, os brasileiros sofrem e muito pelas numerosas deficiências no setor. Justificar esta situação com a alegação de falta de recursos é tentar fugir à questão básica: o que se fez em relação à pólio demandou recursos imensos, e especialmente a boa vontade de resolver o problema. O que, infelizmente, ainda falta nos outros (e muitos) campos da saúde.
O desafio da pólio dava a impressão de ser impossível de superar, mesmo com as vacinas. Afinal, há vacinas para tantos males e mesmo assim crianças ainda morrem de coqueluche ou sarampo. Do mesmo modo, a Medicina (como a ciência de modo geral) progrediu tremendamente, garantindo ao ser humano uma expectativa maior de vida. Todavia, os benefícios todos desta evolução não chegaram ainda aos mais carentes. Periodicamente, há notícias sobre mortes dentro de hospitais. Continuam imensas as filas desumanas dos doentes nas instituições públicas de saúde, à espera de consultas que demoraram meses ou de um atendimento digno raro de ser conseguido. O Brasil está vencendo a batalha contra a pólio, o que é imensamente válido, mas continua a perder outras lutas no setor da saúde. E o brasileiro continua a ser um povo, na maioria, doente.
O ex-ministro Adib Jatene lutou incansavelmente por mais recursos para a saúde. Conseguiu a criação do IPMF, que se converteu em CPMF. É um imenso acréscimo às verbas da saúde, mas que ainda parecem insuficientes. É possível dizer que o que falta para se conseguir em toda a saúde idêntico êxito é que haja a mesma vontade política evidenciada na luta contra a poliomielite.





