Sucessão & desmontes
Vamos chegando a mais um final de campanha eleitoral com a mesma sensação de outros pleitos, de termos, nós, o povo, ficado de fora do processo. Repetiram-se as velhas histórias em que os candidatos monologam adulações aos ricos e bajulações aos pobres, dizendo que os eleitores sempre foram seus melhores amigos (amigos na campanha, eleitores na vitória, contribuintes depois da posse). Diálogo só para matéria de marketing publicitário.
De um modo geral, o eleitor viu-se novamente diante de uma prateleira de supermercado, estudando os candidatos para saber quem é light, quem é diet, o tanto de calorias desse e daquele, qual o melhor preço, qual a melhor relação custo-benefício... Mas sempre contemplando a vitrine de produtos prontos e acabados. Definitivamente, eleitor não tem status de consumidor.
Consumidor tem a preferência, sempre tem razão, é ele quem merece ser bem tratado, bem atendido etc. Eleitor, não. Eleitor é massa-de-manobra, otário potencial. Se eleitor fosse igual a consumidor, teria proteção contra propaganda enganosa, essa magia eleitoral de fazer vencer o melhor engano. Crítica cruel? Ora, cruel é um candidato a prefeito aparecer na telinha prometendo, com a maior caradura, a criação de 100 mil empregos sem dizer como, nem onde, nem quando, nem por quanto. Ou prometendo criar leis melhores, dando de ombros para o fato elementar de que o Executivo não legisla. Decerto não faltam eleitores querendo saber a explicação desse milagre, mas não lhes dão espaço para perguntar.
Se houvesse diálogo, uma das principais indagações a fazer seria sobre se os candidatos, caso eleitos, manteriam políticas e programas do governo anterior que estão tendo êxito social. Isso é fundamental que saibamos. Porque a mentalidade dos políticos é extremamente vinculada ao personalismo. Nenhum deles aprecia, por exemplo, inaugurar uma obra começada pelo seu antecessor a não ser que ele seja do mesmo partido, e se não forem de facções rivais. Pode notar. Boa parte das tais obras inacabadas, ou abandonadas, está desse jeito devido à corrupção; porém, outra boa parte se deve ao personalismo que, costumeiramente, faz o sucessor desmontar a obra adversária.
Assim, bons trabalhos, boas equipes formadas por servidores públicos de carreira são desfeitos não em nome do aperfeiçoamento, mas para impedir que os dividendos políticos sejam remetidos ao adversário. E os novos projetos terão início a partir do zero, despendendo, desnecessariamente, tempo e recursos. O prato diário é a população ver-se privada de bons programas de atendimento; iguaria rara é o sucessor colocar em segundo plano sua vaidade carreirista e pensar primeiro no cidadão.
Essa é uma das razões para os altos índices apontando reeleição no País. O eleitorado parece ter percebido que reeleger é a única garantia de que os bons programas de governo serão mantidos, e que se mudar o técnico vai haver, com certeza, mexida no time que estava ganhando. Mudando o prefeito, boas estruturas administrativas acabarão sendo desmontadas, trocadas por propósitos conjunturais ou meros acontecimentos. Equipes de trabalho que levaram meses para se entrosar, para construir um projeto, para reunir material, para administrar sua execução, simplesmente são descartadas pelo personalismo, ou pela patrulha ideológica.
Não se tem notícia de candidatos de oposição que se comprometeram a manter os bons trabalhos e as boas equipes do governo. O único caso, de repercussão nacional, que poderia ser citado como exemplo de promessa de continuidade do programa do adversário, aconteceu nas últimas eleições, na disputa pelo governo do Distrito Federal, quando Joaquim Roriz prometeu continuar com o programa da bolsa-escola, da gestão de Cristóvão Buarque.
Infelizmente, tem prevalecido a tradição da velha política, pela qual os eleitos, sob alegação de que farão mais e melhor, nunca deixam pedra sobre pedra do que possa ter assinatura do governo anterior.
Resta a esperança de que a dor causada pelas más escolhas contribua para a maturidade do eleitorado. É o sentido evolutivo do processo civilizatório. Com o passar dos anos, haveremos de conquistar o necessário respeito e consideração, a fim de garantirmos que, reelegendo ou elegendo, não haja rotatividade, substituições, mudanças em determinadas políticas públicas, determinados programas de governo indiscutivelmente bem-sucedidos.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba





