Accordéon para os franceses, acordeona ou simplesmente gaita para os pampeanos do sul brasileiro, sanfona para os nordestinos, ou órgão com suspensório no gracejar de Sivuca. Um instrumento ''de sopro'' acionado por teclas e botões, que emite sons pela vibração de palhetas e que, pela inspiração e pelos dedos mágicos de Sivuca transforma-se em sopro divino.
Quem foi vê-lo e ouvi-lo, domingo tocando com a Orquestra Sinfônica de Londrina perdeu noção de tempo e espaço durante hora e meia e mergulhou em profundo estado de espiritualidade. Porque Sivuca não é apenas suas mãos magistrais acariciando os teclados e inundando a atmosfera de doce musicalidade e harmonia, mas é também sua presença a presença do ancião-menino resplandecendo luz de sua aura e de sua cabeça alva e de seu jeito simples e até humilde de ser.
Sua fala, já um tanto cansada e só soando nos graves, é um constante pronunciar de palavras de agradecimento à platéia por escutá-lo, quando esta é que, com toda certeza, gostaria de prostrar-se em gratidão e reverência. Foi mais que um concerto sinfônico e sanfônico.
Muito agradável assistir a essa fusão de pessoa e músico que compõem Sivuca, 73 anos de idade e 65 tocando seu acordeão pelo Brasil e mundo afora. Sivuca parece tocar com a própria alma e por isso atinge fundo quem o vê e ouve. A emoção que se sente é um momento de sublimação e de crescimento espiritual.
Foi muito gratificante assistir à simbiose entre a sanfona sivuquiana e a Orquestra Sinfônica, nesse dia regida pela primeira vez por um jovem maestro que Sivuca comparou como um neto seu, pela idade Henrique Vieira, de apenas 24 anos. Uma fusão de idades e de sons populares e sinfônicos, que resultou num único e vigoroso corpo, harmonioso em sons e formas.
Não vamos falar do virtuosimo de Sivuca. Seria dizer o óbvio, mas não é fácil executar o movimento-contínuo de Paganini, como o fez o mestre da sanfona. Não deve ter sido fácil também para o violinista-compositor.
Esse Concerto Sinfônico para Asa Branca, a rapsódia gonzagueana, a transposição para a sanfona de músicas para o bandolim, os gracejos florais de Sivuca com sua alma-gêmea a sanfona ao executar o frevo em diferentes ''idiomas'', foram os ingredientes para a sagração do momento mágico que iluminou a noite do domingo londrinense e que elevou a alma de todos que lá estavam.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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