Num passado recente, nosso grande flagelo era a inflação, e contra ele se clamava dia e noite. Pelo menos para os assalariados a inflação se afigurava como um monstro maligno, que devorava seus parcos rendimentos logo nos primeiros dias do mês. Naturalmente, essa não era a ótica dos especuladores, dos doleiros, dos banqueiros, dos comerciantes, de todos, enfim, que ao invés de perder ganhavam com a situação inflacionária. São estes que hoje têm saudade da inflação que acabou por obra do Plano Real.
Entre os males advindos da inflação corrosiva de salários, castigo constante para os mais pobres, havia um praticamente invisível aos olhos do comum das pessoas mas não menos danoso: a manutenção da mentalidade do atraso, legada por colonização e aclimatada e reciclada ao longo de nossa evolução histórica e cultural. Como disse Nelson Rodrigues: ‘‘Subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos’’.
Explicando melhor, a mentalidade do atraso que admite a inflação como benefício, significa, entre outras coisas, o pendor para o lucro fácil em detrimento de esforço árduo e metódico, a exaltação do improviso no lugar da produção organizada, o espírito de aventura e não o do trabalho. Esses modos de pensar e agir que ficaram impressos na nossa visão de mundo desde os primórdios da colonização, têm origens que Sérgio Buarque de Holanda analisou em sua magistral obra, Raízes do Brasil. Neste livro, o historiador apresenta certas características culturais dos colonizadores da América Latina, como nesta passagem:
‘‘Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobilitante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. O que ambos admiram como ideal é uma vida de grande senhor, exclusiva de qualquer esforço, de qualquer preocupação. E assim, enquanto povos protestantes preconizam e exaltam o esforço manual, as nações ibéricas colocam-se ainda largamente no ponto de vista da antiguidade clássica. O que entre eles predomina é a concepção antiga de que o ócio importa mais do que o negócio e de que a atividade produtora é, em si, menos valiosa que a contemplação e o amor’’.
Esta mentalidade original ligava-se por sua vez à concepção do Estado paternalista, clientelista, patrimonialista, do qual se dependia para tudo. O comércio e a indústria estavam atados às autorizações, às tarifas protecionistas, às concessões, como aliás até hoje.
Recorde-se aqui, que com a extinção do tráfico de escravos imposta pela Inglaterra, o capital liberado ensejou uma fase em que uma série de empreendimentos comerciais e industriais foram realizados. O famoso ‘‘encilhamento’’, a especulação e o jogo da Bolsa compunham também uma atmosfera de euforia e fascinavam os que rapidamente multiplicavam suas fortunas. E na interferência estatal, que incluia o chamamento de empresários, oferecendo-lhes concessões e garantindo-lhes juros, não faltava, apesar da austeridade do segundo reinado, a corrupção. Como afirmou Raymundo Faoro em Os Donos do Poder:
‘‘Fez-se, graças a esse sistema, largo tráfico de concessões que originaram altas fortunas no Império. Eram frequentes as concessões a políticos que as vendiam a incorporadores nacionais e estrangeiros, circulando por dezenas de mãos, antes de realizarem os serviços, quando os realizavam. Não era comum que a especulação matasse a empresa, esfolando-a antes de nascer... Usavam também os negociantes se associar aos políticos mais prestimosos para figurarem nominalmente ou por intermédio de parentes e amigos, em alguma concessão.
Diante desses fatos de um passado próximo, não fica difícil entender porque hoje muita gente no Brasil ama a inflação e cultua o pai Estado, tutor de todas as facilidades, especialmente para seus filhos diletos, os funcionários públicos. Daí as reações violentas contra o Programa de Estabilidade Fiscal apresentado pelos governo. Programa este que dificilmente será executado pelos governos dos Estados e municípios, os quais reproduzem em graus variáveis e de acordo com a realidade em que estão inseridos, a corte perdulária herdada de D. João VI, com sua chusma de fidalgos incompetentes, seus privilégios, sua burocracia asfixiante.
Além do mais, o governo terá que enfrentar o Congresso, do qual se torna muitas vezes refém, uma vez que a maioria dos parlamentares só volta objetivando seus interesses particulares e não o bem comum. E num país onde predomina o individualismo por parte de uma sociedade sem a menor tradição de espírito de sacrifício pelo país, o presidente enfrentará a opinião pública alimentada pela imprensa. Justamente nesta brecha de baixa popularidade de governo, a oposição três vezes derrotada vai cacarejar mais alto seus discursos populistas e vazios de propostas numa tentativa desesperada de auferir poder seja lá como for.
Diante do que ocorre, relembro mais uma vez o que escreveu Euclides da Cunha em Os Sertões : ‘‘Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos’’.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina

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