''Subdesenvolvidos perdem a cidadania'' - NADER ALI JEZZINI (Entrevista)
Maigue Gueths
De Curitiba
Apesar do seu trabalho estar ligado diretamente à economia mundial, e o livro ter nascido de estudos também ligados à economia, o senhor procurou outro enfoque para falar da globalização. Por quê?
JezziniA verdade é que eu escrevi este livro porque estava vendo muita injustiça. E assim, o livro tem um enfoque muito mais político e social. O processo de globalização, em si, é muito antigo. Quando uma tribo trocava mercadoria com outras, o que se chamava de escambo, isto já era um processo de globalização. Hoje a mundialização vem acontecendo por diferentes meios, não só pelas telecomunicações, que nos deixa em tempo real com o mundo todo.
FolhaQuais são estes outros meios?
JezziniSão os meios comuns a toda sociedade e por onde ela é atingida, como o processo educativo, a destruição educacional, os vários tipos de drogas, as doenças, a destruição familiar.
FolhaQuais são as suas principais críticas na área social à globalização?
JezziniMuitas vezes o processo de mundialização acontece em paralelo com um processo de colonização. E a história se repete. Alguns países que colonizaram o mundo, hoje estão à frente de novo. Nós conhecemos, também, a bipolaridade através da guerra fria, que estabeleceu dois pensamentos no mundo. Nos anos 90 temos outra globalização se sobrepondo, a americana. Isto significa uma boa saída para os países que já estão no poder, mas péssima para a maioria das nações, que sofre uma dependência muito grande. A modificação das pessoas aconteceu pela necessidade financeira. Hoje ela não precisa ser necessariamente capitalista, neoliberal, socialista ou comunista, mas acredita-se que há uma solução mundial para toda a humanidade. Assim, quem tem mais poder financeiro se sobrepõe às mudanças e não permite que outras nações possam crescer e concorrer.
FolhaE de que modo se vê isto?
JezziniPela pressão financeira da dívida externa nos países em desenvolvimento, por exemplo, mas também pelo declínio educacional, pela transformação das pessoas pelo uso de drogas que atingem todos os cinco sentidos, pelas famílias destruídas e pelos comportamentos. Se você vai ao cinema, por exemplo, a maioria dos filmes que você vê tem cenas de crimes, de assassinatos, de corrupção. Quase não se faz filmes educacionais, que formam a sociedade, que discutem temas importantes para a nossa vida.
FolhaE o senhor acha que estes filmes influenciam e aumentam a violência na vida real?
JezziniClaro. Nos Estados Unidos, nós vemos crianças de 8, 10 anos matando nas escolas. Outras crianças, de outros locais do mundo vêem isto e querem copiar. Torna-se um processo repetitivo. E um exemplo disso é o que aconteceu em São Paulo recentemente, quando um jovem sacou uma metralhadora e atirou contra a platéia. Tudo isso mesclado ao caos social vai gerando uma situação cada vez mais insustentável.
FolhaO senhor se refere à qualidade de vida das pessoas, à situação de insegurança e dependência dos países mais desenvolvidos?
JezziniO que acontece é que quem tem dinheiro tem acesso ao que a indústria oferece e quem não tem, não tem acesso. Com isso, cria-se um mundo de oprimidos e opressores. Diante desta situação, a sensação das classes mais baixas é de descontentamento, claro, pois elas não se consideram como pessoas iguais. Aí temos mais um outro fator, que também tem causas na globalização, que é o desemprego, que dificulta a vida destas pessoas mais ainda, pressionando-as para cometer delitos. E ao invés das pessoas tentarem solucionar estes problemas pela raiz, elas só trabalham no sentido de remediar.
FolhaO senhor é contra os novos processos tecnológicos e a abertura de mercado?
JezziniEu não sou contra e nem dá para ser contra as novas tecnologias, os computadores, a robótica, a Internet. O problema é que a mudança no mundo do trabalho exige, hoje, mão-de-obra muito mais qualificada. E este é um problema, porque a maioria das pessoas não tem qualificação nem acesso a tais meios. E esta é outra forma de selecionar as pessoas. Porque uma nação que carece de trabalho, alimentação e de água, gera descontentamento e revolução. É o caso da Indonésia, Cingapura, das nações do Cáucaso, da crise racial dos Estados Unidos, do racismo em países do primeiro mundo contra os latino-americanos. Claro que todos estes conflitos estão mesclados com interesses políticos, mas não dá para negar que há problemas sociais sérios em todos estes lugares. Dá para sentir que o descontentamento é mundial, passando pela crise do Leste Europeu após a queda do muro até os Estados Unidos, que também vivem uma situação séria.
FolhaNeste quadro colocado pelo senhor, o Brasil fica do lado dos países desfavorecidos. Ele tem condições de entrar e competir com os mais fortes?
JezziniPara começar, como é que um país quer se inserir em um mercado globalizado e consequentemente competitivo, se poucas de suas universidades oferecem cursos nas áreas de Relações Exteriores e em Economia Internacional? Os países tentam se defender e se fortalecer política e economicamente formando blocos, como a União Européia, que é o mais adiantado, a Federação das Repúblicas Árabes que depois virou os Emirados Árabes Unidos, a África Austral, o Nafta, a Apec, o Mercosul. Mas todos estes blocos passam por pressões políticas e econômicas internacionais.
FolhaEstas pressões acontecem não só entre os blocos, mas também entre países do mesmo bloco, como acontece com o Brasil e Argentina, que competem no Mercosul. Como é que estes blocos menores podem se fortalecer?
JezziniA cultura e a educação argentina e chilena são muito mais valorizadas na América Latina do que as do Brasil, e mesmo assim passam por crise de identidade. A verdade é que as nações subdesenvolvidas ou em desenvolvimento estão perdendo a soberania e a cidadania. São nações que têm uma dependência muito grande, quando precisariam de desenvolvimento interno, auto-sustentação. Se elas dependerem apenas de privatização e empréstimos, como tem feito o Brasil, a política destas nações pode sofrer sérios problemas.
FolhaPara o senhor, a privatização é também uma forma de perda de soberania?
JezziniEu não sou contra a privatização, mas acho que este estágio de passar as empresas públicas para o setor privado deveria dar mais prioridade e condições para o empresariado nacional. Sem isso, o que acontece: o mercado nacional continua sem condições de competir e colabora ainda mais para manter aquela velha visão sobre o Brasil no exterior, de que é o País do carnaval, do futebol, do samba e da Amazônia.
FolhaE tem condições de reverter isto a médio prazo?
JezziniÉ difícil a curto e médio prazo, porque enquanto alguns países valorizam o amor à Pátria de modo exacerbado o que não é bom outros apenas copiam, sem se preocupar em manter uma identidade própria. Quer um exemplo? Todo mundo critica o armamento nuclear, mas não se discute a eliminação do armamento, só a não-proliferação. Com isso continua a soberania dos países que detêm estas armas. Quer dizer, como é que nós vamos falar em paz se mais de 80% das armas exportadas e os maiores fabricantes estão nos Estados Unidos, na França, Inglaterra e Rússia, que fazem parte do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU)?
FolhaEntão o senhor concorda com a tentativa do Brasil em conquistar uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU?
JezziniIsto seria muito importante, porque lá teríamos condições de nos inserirmos no mercado econômico e político. Mas não podemos esquecer que há outros interessados nesta cadeira, como a Argentina e os países muçulmanos.
FolhaO seu livro aponta para alguma solução, uma saída para esta situação?
JezziniSomos nós que precisamos mudar, as pessoas precisam pensar a favor da humanização do mundo, ter consciência de que a vida é um conjunto. Não adianta só eu estar bem, se olho ao meu redor e todos estão vivendo mal. Se vemos cenas de falta de água e fome na África e em quase todas as nações subdesenvolvidas, não adianta só mandarmos dinheiro ou doarmos alimentos a vida toda. É necessário ensinar e oferecer condições para que um povo possa usar, de maneira adequada e racional, o alimento e a água, e assim passe a ser produtivo. O meio ambiente, aliás, é outro problema, pois os recursos naturais estão se esgotando e não tardará para que a falta de água potável seja um motivo de guerra entre os países. As pessoas têm que aprender a estudar e a trabalhar em cooperativismo e criar sem desperdícios para contribuir com um mundo melhor no futuro.Consultor da área de comércio exterior lança livro onde narra a consequência social da chamada globalização
Na privatização se deveria dar prioridade à empresa nacionalÉ necessário solucionar o desemprego pela raiz, não remediarKraw PenasPREVISÃOJezzini: Muitas vezes o processo de mundialização acontece paralelo ao processo de colonização. A história se repete





