Suave veneno - TT Catalão
TT Catalão
É um tipo de fome diferente: ter dinheiro para poder comprar, mas não saber se pode comer. É a suprema ironia de fim de século no Planeta. Uma legião de miseráveis famintos por carência total e ricos mal-alimentados pela qualidade discutível de alimentos. Aconteceu na crise dos frangos belgas que se alastrou por toda a Europa. Alarmou mais ainda com o veneno em determinada safra da Coca-Cola deles e continua pegando fogo com a forte resistência dos europeus aos produtos transgênicos.
Nós, tupiniquins, sempre complexados pela fragilidade das nossas instituições, veríamos que o principal escândalo no Primeiro Mundo esteve na omissão das autoridades em divulgar a ração contaminada, pois esperavam estrategicamente pela eleição do Parlamento Europeu. Não adiantou. A coisa vazou e os verdes obtiveram crescimento gigante - hoje constituem a segunda força na França com Cohn-Bendit - elevados pelo chamado efeito dioxina.
Mas o Brasil não está fora dessa trama. Não há consciência crítica profunda sobre o que comemos. O impulso da propaganda consegue até provar, pela beleza cinematográfica dos pratos fumegantes, que arroz branco é mais saudável e saboroso que arroz integral. A doutrinação pelo açúcar, a lavagem cerebral dos fast-food, a lobotomia para o mito absoluto das carnes como principal fonte de proteínas e uma série de manipulações deixam a todos reféns da indústria e do comércio sem uma abordagem de política pública para a alimentação.
O Estado deve achar que não é com ele. Embora gaste mal as fortunas extirpadas do nosso suado imposto para tratar (muito mal) doentes sem se preocupar com a eliminação das causas. Enfim, deixa vir as cáries para gastar depois com dentistas. E mais úlceras, estresse, tumores, acidentes neurológicos, cardiopatias e uma longa lista de doenças com raízes em hábitos culturais e griffes econômicas.
Na porta do ano 2000, ninguém duvide que a questão fundamental para um novo modelo de desenvolvimento recairá sobre políticas públicas para a saúde total. Ninguém duvide da urgência para conter a sangria mensal da economia decisiva do futuro quando o Brasil está perdendo patentes valiosas na guerra da biotecnologia.
Os alimentos transgênicos podem não ter ainda estudos reveladores do impacto no ser humano, mas estudos de produtividade são fartos. Gente passa a ser um incômodo detalhe. Gente só quer, no momento, o direito de ser informada sobre o conteúdo e a qualidade do que come. Detalhe? Sem falar que, do ponto de vista dos mercados, terá mais chance de exportar quem tiver o produto mais limpo possível. É a tendência saúde para o ano 2000 na Europa.
O mais ardiloso nisso tudo é que substâncias nocivas agem lentamente. Um suave veneno inoculado sobre diversas gerações até viciar ou se tornar verdade pela repetição indefinida da mentira.
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília





