Gaudêncio TorquatoSOS para
a inanição
Não se pode exigir da figura exponencial do presidente da República que se guie sempre por uma linha reta, em sua luta pelo ideal do bem comum. Afinal de contas, como prega Lord Chesterfield, um homem que se orgulha de seguir uma linha reta por toda a vida é um idiota que acredita na infalibilidade. Assim, os desvios, os erros e os excessos fazem parte de sua caminhada. O que não se pode admitir é o que o brilhantismo intelectual de um presidente, ancorado em constantes demonstrações de vivaz loquacidade, resvale por críticas injustas a cidadãos que são obrigados a cumprir as leis do País. Não combina com Fernando Henrique uma linguagem descomprometida e vulgar.
Mas não se pode condenar de todo o presidente. O stress deve estar consumindo sua razão. Quando faz a crítica à banda podre da política ou quando critica aposentados precoces, devemos entender o gesto como um sinal de condenação aos métodos tradicionais da política e aos oportunistas. Mas o presidente, sabemos, é muito vaidoso. Não perde a chance de querer encantar as platéias. E é aí que o peixe morre pela boca. Como diz o ditado latino, ‘‘homo loquax, homem mendax (homem loquaz, homem mentiroso)’’.
Ademais, o primeiro mandatário se ambienta num sistema de estrelato, onde tudo gira em torno de um único astro, ele próprio. Os outros candidatos à presidente continuam tão distantes de seus domínios que ele se permite jorrar adjetivos maldosos pela boca e jogar votos pela janela. Avança pela inércia e despreparo dos outros. Pode-se dar ao luxo de proferir aulas de eloquência, viajar pelo mundo, fazer uma visitinha de araque ao semi-árido nordestino e compor frases de efeito, do tipo ‘‘só Deus resolve a questão da seca’’. O deus do presidente é frio, distante, metafórico, concebido à imagem e semelhança de uma personalidade maquiada pela racionalidade e método científico. Não é o Deus dos famintos, da fé e da crença, da força mística de homens que não têm o hábito de blasfemar.
Há de se reconhecer algo positivo nos desabafos presidenciais das últimas semanas. La Rochefoucauld dizia que a sinceridade é uma abertura do coração que nos mostra como somos; é um desejo de reparar os defeitos e até de diminuí-los, pelo mérito de expressar os sentimentos mais íntimos. Nesse caso, a sinceridade não deixa de ser uma espécie de confissão de Fernando Henrique. A confissão de que ele peca e muda de opinião. A confissão, por exemplo, de transformar a CPMF - contribuição provisória - em contribuição permanente, fazendo do Brasil o único país do mundo a cobrar esse tipo de imposto.
Mas o presidente, do alto de seu pedestal weberiano, sabe que a força da personalidade amplia o poder e transforma figuras públicas em personalidades eletrizantes e legisladores legítimos. Por isso, sabe que será perdoado pelas elites e pelas massas.
Em tudo, porém, há um limite. Não poderá ele continuar desconhecendo o estado caótico na área social do País. Nos espaços nacionais, move-se um corpo social desestruturado, corroído por doenças, mazelas da estação e cercado pela violência indiscriminada. Não dá mais para mistificar. O Brasil da inflação quase zero está sufocando o Brasil da inanição quase total que consome as energias de milhões de cidadãos.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos (ABCOP)

mockup